Ziguezagues pelas ruas da infância

Como eu mencionei no relato da 4ª Meia Maratona Frei Galvão, depois de sete anos, estou de volta ao bairro que, se não me viu nascer, foi onde passei praticamente toda a minha infância, a adolescência e o começo da vida adulta. O Jardim Satélite, mesmo nestes anos em que vivi no bairro vizinho, Bosque dos Eucaliptos, continuou sendo a minha casa, a minha terra natal. É onde estão até hoje os meus pais, (alguns d)os meus amigos do tempo de moleque, a minha agência bancária, o meu posto de gasolina, a minha oficina mecânica, o camarada que corta meu cabelo (que por sinal é corredor também, e dos bons!!!), enfim, é a minha base. Estar de volta ao lar é bom. Inclusive para os treinamentos de corrida.

 

Mapa do Jardim Satélite

 

Com o lugar mais adequado do bairro para se correr (a pista de atletismo do Centro Poliesportivo João do Pulo) em reforma por tempo indeterminado (ô epocazinha ruim pra reformar qualquer coisa, com tanta chuva!), bem como a outra opção mais próxima, a Área Verde, na divisa entre o Satélite e o Bosque, as opções ficaram meio escassas. Restaram basicamente aos corredores do bairro as pistas da Praça Mario Cesare Porto e a da praça em frente à escola Joaquim Meirelles, que fica a menos de duzentos metros do meu prédio (além das duas praças na parte mais nova do bairro, chamada agora de Floradas de São José). Mas eu continuo com aquele velho defeito: não consigo treinar em um lugar só! Preciso de variedade, de novos ares, de cenários diferentes para me motivar a correr. Admiro muito quem consegue treinar girando em torno do próprio eixo (até fazendo longões!!!), porque isso, definitivamente, não é a minha praia. No começo desse ano, quando iniciei a planilha de treinamentos visando a Maratona de São Paulo (no final de maio), tive uma ideia: já que elas estavam ali mesmo, por que não usar as ruas do próprio bairro para variar os percursos ? Acessei o MapMyRun e montei, só de brincadeira, um roteiro de aproximadamente 9 km para estrear. Passando pelas várias ruas com nomes de cidades nordestinas do chamado BNH, a parte do bairro construída no início dos anos 70, onde morei dos dois aos vinte e sete anos de idade (parte deles na Itambé, outra na Ilhéus). Fiquei meio em dúvida se valia mesmo a pena fazer um treino desses, em ziguezague. Parecia coisa meio maçante, enjoativa, chata até. Mas resolvi tentar assim mesmo. No final da tarde, minutos antes de sair para correr, caiu uma chuva forte. No que saí de casa, ela tinha diminuído um pouco e se transformado em uma garoa fina. Desci a Avenida Cassiopeia inteira, da esquina com a Cidade Jardim até a outra, com a Perseu. Virei à esquerda na padaria e comecei o entra-e-sai pelas ruas do bairro. Diferentemente do que imaginei que seria, achei um grande barato.

 

Em cada rua que eu passava, notei que tinha lembranças de muito tempo atrás. Um amigo, uma paquerinha, a casa da menina mais bonita da classe, outra onde tinha rolado AQUELA festa (onde a galera entrou de penetra, por sinal), o lugar do catecismo, a escolinha do pré-primário, que nem existe mais... O clima agradável para correr ajudava e a sensação de endorfina na veia junto com esse flashback foi simplesmente sensacional. Outro detalhe era a altimetria: as ruas, a partir de um ponto do trajeto, eram todas em subida ou em descida, dependendo do sentido. Os morrinhos no gráfico de altimetria abaixo ilustram o que estou dizendo. Que gostoso foi esse sobe-e-desce! A monotonia esperada se transformou em uma verdadeira gangorra, variada e desafiadora. Encontrei em uma das ruas do trajeto uma vizinha da minha mãe, que me cumprimentou e disse “que coragem!”. Coragem nada, Dona Eunice! É só dar o primeiro passo, os demais vêm no piloto automático...

 

Percurso do Ziguezague 1 – BNH

 

Altimetria do Ziguezague 1 – BNH

 

Terminei esses 9,22 km do percurso em 51 minutos e 51 segundos, dando uma volta em ritmo lento na praça do Meirelles para desaquecer e finalizando com uma boa sessão de alongamentos. O ritmo, de 5:39 minutos por quilômetro, acabou até me surpreendendo na hora em que fui lançar na planilha, já que eu vinha de paces próximos ou até acima de 6 nos treinos anteriores, os do retorno após as férias. Foi uma tremenda injeção de ânimo para começar com o pé esquerdo (sou canhoto!) a preparação para a minha segunda maratona. Decidi então que ia repetir a dose, bolando outros percursos do mesmo tipo, mas em outras partes do bairro, nos próximos treinos.

 

Dois dias depois, depois de uma folga na corrida para fazer a primeira sessão de musculação do ano, voltei ao MapMyRun e montei um novo roteiro, um pouco maior (na faixa de 11 km) e mais complexo, passando desta vez por dois setores diferentes do bairro. Começando pelo chamado Satélite Velho, a parte original e mais antiga e, atravessando a Avenida Andrômeda, chegando às ruas da área conhecida como Cidade Jardim. Se não era um trajeto tão marcante, em termos de lembranças, quanto o primeiro ziguezague, acabou sendo ainda mais desafiador. Embora o gráfico da altimetria abaixo dê uma falsa impressão de ser mais fácil, as subidas eram maiores em número e em inclinação. Os 20ºC ou menos com chuva do primeiro treino foram substituídos por um final de tarde quente, perto dos 30ºC, sem nenhuma nuvem no céu. Desci mais uma vez a Cassiopeia, só que desta vez, na esquina com a Perseu, virei à direita no posto de gasolina. Entrei na primeira rua, a Gravataí, mais curta delas (veja no mapa que Cassiopeia, Perseu e Andrômeda formam um grande triângulo com várias ruas no interior dele). E comecei um novo entra-e-sai pelas ruas do bairro. A molecada jogando bola ou soltando pipa olhando meio torto para o tiozinho correndo naquele calorão. E eu ali, só me divertindo.

 

Percurso do Ziguezague 2 – Satélite Velho e Cidade Jardim

 

Altimetria do Ziguezague 2 – Satélite Velho e Cidade Jardim

 

Dessa vez não deu pra ir a seco, tive que fazer um pit stop entre os quilômetros 3 e 4 para dar uma reabastecida. O calor e os morros deixaram a garganta seca rapidinho, parecendo uma lixa. Depois da parada estratégica na praça do centro comunitário, retomei o percurso pelas ruas com nomes de estrelas e constelações (o próprio nome Satélite vem daí, numa relação não muito bem explicada, na verdade). As ruas cada vez mais longas e, com exceção das duas últimas predominantemente planas, Canopus (conhecida como “rua da feira”) e Virgem, todas com morrinhos curtos, mas bem encardidos. Depois de um trecho ao lado da ciclovia da Andrômeda, virei à esquerda na Cassiopeia, no trajeto inverso ao da primeira edição da Oscar Fashion Running e comecei a segunda parte do treino, pelas ruas com nomes de praias e cidades litorâneas, entre a própria avenida e a Rua Porto Novo.

 

Esta parte do trajeto, embora também com subidas e descidas, era bem mais amena. Com exceção do seu final. Ao sair da Rua Tijuca, descer a Rua Leblon e chegar à Avenida Cidade Jardim, já vi um corredor subindo lentamente. Passei por ele e comentei que essa era a parte boa da brincadeira. Ele riu, concordou e disse que aquela era a nossa “Brigadeiro”. Não tão longa (cerca de 900 metros), mas talvez com inclinação semelhante. Subi em quinta marcha, curtindo como na minha passagem pela dita cuja no treino noturno do dia 27 de dezembro último, ao lado do meu amigo Jerdal. E terminei no lugar de onde tinha saído, fechando os 11,4 km com tempo de 1h4min39seg. Ritmo bem parecido com o do treino anterior, na casa de 5:40 min/km. Achei até bom, principalmente pelo grau de dificuldade, bem mais alto que o do primeiro ziguezague. Depois disso, tirei uns dias de “folga”, viajei, fui para a praia (e dei duas corridinhas por lá) e fiquei só maquinando qual seria o novo percurso em volteios no regresso.

 

Ainda com um pouquinho de areia no tênis, na segunda-feira passada, com um calor ainda mais forte que o da semana anterior, montei um novo percurso, desta vez mais compacto. A planilha indicava originalmente um treino de 8 km, mas com o treininho extra feito no domingo, só para estrear o Avia Avi-Trail na praia, resolvi resumir para 7 km. A alternativa era então correr pelas ruas mais perto aqui de casa, também na área da Cidade Jardim, só que nas ruas do outro lado da Cassiopeia, sentido Bosque. Aí é que a coisa ficou ainda mais zig e mais zag.  As ruas todas curtas, primeiro entre a Andrômeda e a Cidade Jardim, separadas ao meio pelo chamado Passeio Cidade Jardim, de piso novo. E depois ainda menores, entre a Cidade Jardim e a Rua José Pedro Perotti. A temperatura alta, devia estar na casa dos 33 graus. Saiu até fumacinha do coco e, depois de atravessar a avenida, para começar a segunda parte do treino, tive até que dar uma paradinha estratégica para retomar o fôlego. Valeu. Dois minutinhos ali garantiram um final de treino bacana, com direito a uma descida longa rumo à Avenida João Paulo I, acesso ao bairro vizinho da Vila São Bento, e com retorno em subida, cruzando por ali um outro corredor bem mais rápido, nitidamente em fase mais avançada de preparação. Achei que o ritmo teria despencado neste treino curtinho, mas casca grossa, só que, quando fui registrá-lo na planilha, fiquei agradavelmente surpreso ao ver que tinha era baixado bem o ritmo, para 5:33 min/km. Foram 7,46 km em 41 minutos e 21 segundos. Longe, muito longe ainda do ideal, claro. Isso, em uma corrida pra valer, seria praticamente um desastre. Mas com a certeza de estar, claramente, no caminho certo para reencontrar não só a batida perfeita, mas também a alegria de correr.

 

Percurso do Ziguezague 3 – Cidade Jardim

 

 

Altimetria do Ziguezague 3 – Cidade Jardim

 

Restava só mais um setor do bairro ainda não percorrido neste revival. As ruas do outro lado da Avenida Perseu, também parte do Satélite Velho. Se os demais percursos eram relativamente geométricos, este, dois dias depois do anterior, era o caos total! Montei o roteiro de mais ou menos 10 km e tive até que estudá-lo um pouco, já que as ruas por onde ele passava não eram muito fáceis de identificar nem no mapa, quanto mais pessoalmente. A exemplo do que aconteceu no primeiro dia de treino, uma boa e santa chuva caiu horas antes e, dessa vez, inclusive no comecinho da jornada ainda chovia. Andei um pedaço para fazer um aquecimento, parti desta vez da esquina da Cassiopeia com a Andrômeda. Desci a avenida e virei na Perseu. A pista de skate era saborosa na descida e pauleira na subida. Fui até a Rua Cisne, última antes da esquina com a Andrômeda. Nela entrei à esquerda e comecei mais um ziguezague pelas ruas do bairro. Ali pelo terceiro quilômetro, ao descer uma das laterais do João do Pulo, bateu a sensação que o alguns costumam chamar de “runner’s high”, ou “o barato do corredor”, em bom e velho português mesmo. Em se tratando de uma parte do bairro que eu costumo visitar menos, fiquei feliz ao ver algumas melhorias, como o asfaltamento da ligação entre as ruas Castor e Cefeu. Na minha época de estudante de primeiro grau (na época, não se usava “ensino básico”), a gente ia no buracão sem fundo que tinha ali pra catar argila para usar nas aulas de educação artística com a Dona Luizona.

 

 

Percurso do Ziguezague 4 – Satélite Velho

 

Altimetria do Ziguezague 4 – Satélite Velho

 

De volta à avenida, subida de morro outra vez, pra depois entrar na rua Scorpius, uma das maiores do bairro, que começa ali e vai rodando, rodando, até chegar quase no Bosque, naquele terreno hoje da secretaria de serviços municipais que a gente, quando criança, chamava carinhosamente de bosteiro. Mas não seguiria reto por ela. Viraria (inclusive errando o caminho original, que seria na segunda e não na primeira esquina) para pegar a rua paralela, depois a de cima, saindo na praça que a gente chamava de “a do ponto final” (do ônibus que eu pegava para voltar da ETEP, já no segundo grau). Mais idas e voltas e sairia de novo na Perseu, para descer na lateral de outra praça, a Arlindo Fernandes, bem pertinho da casa dos meus pais. Pegar outro pedaço da Scorpius, retornar pela Volans (outro errinho no trajeto original, era pra descer um pouco mais antes de voltar). As ruas ficariam retas neste trecho, atravessariam a Avenida Guadalupe, recém-reformada e que leva aos bairros Jardim Paraíso (também chamado de Kanebo, devido à tecelagem lá localizada), Jardim América e Parque Industrial. Pela terceira vez um trecho da Scorpius, para retornar mais uma vez e finalmente cair no fim do mundo, a Rua Lira, última do bairro e lugar onde costumavam acontecer enchentes memoráveis, com o transbordamento do Córrego Senhorinha, que chegou a ter pelo menos uma vítima fatal.

 

A volta mais uma vez à Avenida Perseu era um morro de responsa, ilustrado a partir do km 8 no gráfico de altimetria acima. Mas subi numa boa, sem andar e nem ter vontade de. Para um começo de temporada, já estava de bom tamanho. Depois de um breve trecho plano, mais uma subida, esta bem mais leve, na Rua Ipiau, lugar de amigos de infância e de partidas disputadíssimas de vôlei de rua nos anos 80. Pra fechar o treino, que por conta dos errinhos, acabou tendo só 10,07 km ao invés dos 10,35 previamente medidos. Em 59 minutos e 26 segundos. Média de 5:54 minutos por quilômetro. Baixa, mas justificável por tantos altos e baixos pelo caminho.

 

Enfim, foram quatro treinos que trouxeram à tona boas lembranças de um passado que, se não é tão distante, também não aconteceu ontem à noite. E uma bela maneira de começar motivado uma temporada de treinos que promete bastante, principalmente me levar a fazer uma segunda maratona melhor preparado do que para a primeira (e tomara que com um pouco menos de sofrimento também!). Achei, portanto, que valia a pena compartilhar essas pequenas histórias com os amigos que estão acostumados com os meus relatos de corridas. Só aquecimento. No dia 24 de janeiro tem a primeira do ano, em Bom Jesus dos Perdões. Abraços a todos e até lá!

 

 

Fábio Namiuti

 

Veja meu livro de visitas | Assine meu livro de visitas | Contato

 

Topo da Página Volta | Página Principal Volta | Treino Anterior Volta | Próximo Treino Volta

PUBLICIDADE