Tá tudo bem

 

A não ser que você seja o Superman e tenha superpoderes suficientes para reverter a rotação da Terra, o tempo não volta atrás. O que está feito está feito, uma desistência sempre será uma desistência, qualquer que tenha sido o motivo que levou a ela. Mas, quase sempre, o que há também é a chance de tentar novamente e isso, mormente para quem não vive das corridas e não tem que prestar contas delas a ninguém que não a si próprio, pode e deve ser levado em conta. Em SP não deu pra mim e o tempo está se encarregando de mostrar que, mesmo dolorosa, essa foi a decisão certa. Fica a nova chance no Rio. Nessas três semanas de 19/06 para cá, o que procurei fazer foi voltar a treinar, dentro das minhas possibilidades; e reforçar uma preparação que andou meio cambaleante por conta de várias pequenas, mas incômodas contusões.

 

MSP, uma prova que não acabou

 

Uma das coisas bacanas do esporte em geral, mas mais particularmente da corrida, é que ela tem várias simbologias. Em termos práticos, não valeu absolutamente nada, mas ter a oportunidade de correr, apenas quatro dias após aquela manhã fatídica, a exata distância de 12 km (e algumas centenas de metros) que me faltou para completar a maratona paulistana (e o melhor, em bom ritmo e sem qualquer vestígio da dor que me fez abortá-la), foi um daqueles gestos simbólicos que não redimem, mas trazem certo conforto.

 

Daquele dia até hoje, foram apenas nove treinos e uma corrida (a da Longevidade, já relatada aqui), pouco mais de 120 km rodados. Pouco, provavelmente insuficiente para fazer uma boa corrida em terras cariocas. Porém, com uma boa e impagável sensação: a da normalidade. Ter conseguido voltar a rodar de forma indolor foi uma daquelas bênçãos que a gente nem acredita direito quando recebe. Fazia tempo que eu não sabia o que era treinar sem o aborrecimento de uma sola, lateral de quadril ou joelho incomodando. Estando bem e inteiro, o resto é comigo, sei bem disso. E faço a minha parte, como sempre fiz.

 

Desses treinos, quatro em especial merecem destaque, além do retorno pós-maratona já mencionado acima. Falo brevemente sobre cada um deles a seguir.

 

Sábado, 25 de junho de 2011

Percurso: Colinas – Paratehy

http://connect.garmin.com/activity/94701909

Distância: 19 km

Tempo: 2h14min

 

O amigo Jorge Monteiro me convidou para acompanhá-lo em seu longo pré-Meia do Rio, eu já estava em falta com ele há algum tempo... Não poderia ser melhor: retomar a preparação rodando em ritmo um pouco mais confortável que o meu habitual, reacostumando a carcaça às distâncias e aos tempos de rodagem mais altos sem exigir demais dela, entretanto. Repliquei o convite para o veterano Toninho Corredor, que terminou tão bem e forte a Maratona de SP que voltou a rodar só dois dias depois (não que eu recomende isso!) e aceitou de bate-pronto. De última hora, ganhamos a companhia do também neomaratonista Sílvio Lima que, passando férias na nossa região, pretendia passear com a família na serra, mas ganhou um alvará provisório matinal para correr conosco. E que bonito passeio foi! O percurso original, meio manjado, foi alterado na hora, fugindo propositalmente da subida mais forte no trecho que liga a sede do GACC à Univap. Mas, em compensação, ganhou um novo, indo em direção ao condomínio Paratehy e, pela primeira vez na história no nosso país de corredores, passando do trevo da portaria do mesmo e seguindo adiante pela lateral do muro até o dead end. Rampinha boa para quebrar a monotonia das planícies. Igualzinho um tal de Elevado do Joá, conhece?

 

Entornos do Paratehy

 

Lá pelo 16º km, sabe-se lá como e porque, cutuquei o Sílvio e perguntei se ele topava acelerar. Pela ciclovia da Av. Lineu de Moura, onde já tínhamos disputado a primeira corrida da temporada 2010 na cidade, ligamos o turbo e fomos buscar ritmos na casa dos 5 x 1, contrastando bastante com os 7 x 1 do restante do trajeto. Abrimos alguma distância da outra dupla, retornamos para acompanhá-los novamente e, com isso, e acabamos estendendo o treino em um quilômetro, fechando em dezenove, ao invés dos dezoito previstos. Uma bela retomada de rumo, com direito a café da manhã reforçado na casa do anfitrião (isso porque já tinha rolado um animadíssimo jantar de confraternização na véspera, onde esvaziamos um “balde” de uma saborosa canjiquinha). Se o final de semana anterior tinha sido de médio astral, esse foi só de alegrias.

 

Percurso Colinas - Paratehy - Colinas

 

Quinta-feira, 30 de junho de 2011

Percurso: “Centro Histórico 2”

http://connect.garmin.com/activity/95962796

Distância: 10,28 km

Tempo: 57min

 

Também em 2010, igualmente às vésperas da maratona carioca, eu havia concebido e chamado os amigos para um passeio inusitado pela região central da nossa cidade. As condições climáticas severas (uma tempestade daquelas!) da noite prevista, no entanto, acabariam transformando o treino em uma verdadeira declaração de amor à corrida. Só apareceram realmente alguns daqueles que topam qualquer parada (eu e mais três malucos beleza). A segunda edição do treino inspirado na prova homônima pela capital bandeirante, contudo, aconteceria em uma noite bonita e agradável, de temperatura amena e com a presença de um grupo animado e numeroso, que se reuniu na orla do Banhado e, pontualmente às 19:32, disparou em ziguezague pelas ruas do centro joseense.

Treino literalmente histórico

 

O percurso era realmente meio complexo; o grupo, de gente de ritmos tão diversos, não tinha mesmo como se manter unido o tempo todo. Alguns, portanto, acabaram se perdendo pelo caminho, rodando menos ou até mais que os 10 km previstos. Até a minha própria trupe acabou errando uma das ruas e aumentando em quase trezentos metros a distância original. Não importava. A diversão, o mais importante, foi garantida. E o ritmo, até razoável para os meus padrões, foi mantido por praticamente todo o trajeto (pena que eu tinha desligado o autolap e não pude registrar as parciais por quilômetro), com algumas boas subidinhas pelo caminho, aliás. Quem esteve lá, estou certo de que gostou bastante.

 

Percurso Centro Histórico 2

 

Sábado, 2 de julho de 2011

Percurso: “Desafio Volta ao Banhado”

http://connect.garmin.com/activity/96265885

Distância: 24,5 km para mim, 30,9 km percurso completo

Tempo: 2h40min

 

Sou o mentor intelectual (ou nem tanto) de boa parte das boas insanidades & encrencas nas quais meto meus companheiros de esporte. Mas felizmente não sou o único. Um outro bom e legítimo discípulo do Marquês de Sade é o meu amigo Michel, vulgo BMW Runner. Das andanças que já fizemos por aí, as que não têm a minha assinatura, provavelmente terão a dele (isso quando não tramamos em dupla ou incorremos no art. 288 do CP, como foi o caminho da fé, por exemplo). Poder colocar em prática meus próprios projetos é bem bacana, mas participar dos de outrem também é. Gosto de ambos os casos.

 

Já vínhamos conversando faz tempo sobre a ideia de um treino longo atravessando o pequeno, pouco conhecido e de difícil transposição trecho de ligação entre as regiões norte e oeste da cidade. À medida que o dia da maratona se aproximava, no entanto, era importante encaixar logo a data no calendário, sob risco de ficar para a próxima temporada. Calhou desse dia possível ser apenas dois depois do último treino coletivo e na véspera de uma prova já com inscrição confirmada, que ficaria difícil cancelar (e tampouco participar de forma mais competitiva). Muita gente boa e previamente anunciada como participante oficial acabou dando W.O. de última hora, mas, ainda assim, seis valentes começaram a travessia com alguns minutos de atraso na manhã fria do sábado. Além do organizador e desse corredor que vos escreve, também Toninho, Sílvios (Lima e Américo) e Renny. Como staff, fotógrafo e agueiro oficial, o tenista e neocorredor Willian Max, irmão caçula do Michel.

 

Dando a volta no Banhado

 

Tudo começou tranquilo e urbano, no caminho já conhecido de outros treinos pelo bairro do Altos de Santana. Mas a travessia propriamente dita foi rica em obstáculos. Tivemos que passar na miúda por um pitbull que guardava a entrada da propriedade e enfrentar um lamaçal que fez lembrar a Meia Maratona Trilheira recente, para ficar só em dois exemplos. Na volta à civilização, uma ladeira que parecia mais parede de tão inclinada, às portas do chique condomínio Jaguari. Outra lomba mais tarde, no também sofisticado Esplanada do Sol, ajudaria a judiar um pouco mais dos combatentes, bem como a velha e velhaca rampa da Anchieta

 

Como doideira pouca é bobagem, eu ainda caí na besteira de sugerir que arredondássemos logo para trinta os 28 km originalmente previstos, acrescentando um pequeno apêndice pelo muro do Colinas ao longo da Via Oeste. Acha que os caras não toparam? Queriam era seguir em frente e dar uma esticadinha até o Jardim das Indústrias ou o Limoeiro. Pouco Forrest Gumps esses meus amigos?

 

E como a tal da Lei de Murphy segue vigorando perenemente, havia no percurso uma breve passagem pelo Vicentina Aranha, com uma volta de 1050 metros pela pista de terra para inteirar a distância planejada pelo Michel. Quando corro sozinho, aproveito para dar uma parada, tomar um gole d’água e reajustar a respiração. Os amigos não adotam a mesma estratégia e seguiram reto. Sozinho, com o relógio apagado após pouco mais de duas horas de treino, acabei desanimando um pouco. Com quase 24,5 km rodados e faltando apenas seis para chegar, tentei retomar o trote, mas acabaria deixando pra lá. Peguei um ônibus e fui pra casa, perdendo a caprichada salada de frutas que estava reservada para os que vencessem a distância completa. Acendeu uma luz amarela, porque era o maior e talvez mais importante treino da safra. Mas não havia dor envolvida, apenas cansaço e a infeliz “tecnodependência”. No dia D, não serei vítima dela novamente, de modo algum. Vou com estepe.

 

Percurso completo da Volta ao Banhado

 

Sábado, 9 de julho de 2011

Percurso: Volta da Vista Verde

http://connect.garmin.com/activity/97857408

Distância: 17,5 km

Tempo: 1h43min

 

Não é de hoje que eu sou adepto dos ziguezagues e volteios para fugir da mesmice dos treinos cotidianos. Consigo manter há tempos motivação inabalável por introduzir um componente lúdico no rigor das planilhas. Já falei aqui de algumas sessões que cumpri dando voltas amalucadas pelas ruas do meu bairro de infância e de morada atual (e no qual espero ficar por muito tempo, se possível, a despeito da crise), o Jardim Satélite. E, para não posar de Napoleão de hospício, nem mencionei outros que já fiz solitariamente em diferentes bairros da cidade, como o Jardim Morumbi (corri uma “meia maratona” por lá!), o Parque Industrial, o Bosque dos Eucaliptos, a Vila Industrial e seus apêndices (Ismênia e Tatetuba), por exemplo. Mas um dos meus projetos mais vangóguicos ou dalísticos, já tinha desenhado na tela do computador com auxílio da ferramenta MapMyRun.com, só sem muita disposição ou coragem para encará-lo sozinho.

 

Já que tinha mesmo que fazer um último longuinho antes da maratona no final de semana anterior a ela, resolvi jogar no ar a proposta. Refiz o mapa, formando um bonito e labiríntico desenho usando as ruas do bairro da Vista Verde e o postei nas redes sociais Facebook e Twitter. Não é que teve gente que comprou a ideia (principalmente os moradores da própria região)? Animado, espalhei o convite por mala direta, mas ainda assim, pela distância desafiadora do trajeto, contava com número de participantes na casa de um algarismo apenas, no máximo pouco mais. Quando na véspera, recebi o telefonema do Toninho, que pensei estar fora da cidade, dizendo que correria conosco, fiquei ainda mais contente. Na hora combinada, no estacionamento da paróquia, foram surgindo cada vez mais colegas de esporte. Uns, velhos conhecidos de outros carnavais. Outros, caras novas, não deu nem pra perguntar o nome de todos. Se não errei na conta, vinte e dois apareceram para correr. Dava até pra pegar a bola e fazer um rachão com dois times completos...

 

Galera pronta pra VVV

 

Numa friaca danada (tomara que no domingo que vem esteja parecido!) e com um pequeno atraso, largamos todos juntos, mas logo nos espalhamos pelo trajeto. Fiquei num grupo que tinha, além de parceiros habituais como o Toninho e o Bruno Narezzi (precavido, faria um revezamento com o Michel, cada um correndo cerca de 9 km), também com o Francisco, morador do bairro desde o final dos anos setenta. Foi uma boa decisão. No percurso intrincado, cheio de vaivens, mudanças repentinas de direção e tobogãs para todos os gostos, estar com um guia especializado seria garantia de fazer parte do seleto time que cumpriria o roteiro à risca. Os demais, quase todos, se enroscariam em alguma parte do mapa e, sabiamente, improvisariam, sem perder o humor e nem o objetivo do treino.

Correr foi fácil, difícil mesmo foi acertar esse caminho...

 

Com as baixas e disparadas alheias pelo caminho, nosso pelotão acabaria ficando restrito a quatro nomes: Fábio, Toninho, Francisco e André. Faríamos a segunda metade todos juntos, ora usando o sempre inspirado veterano como coelho, ora correndo ao lado dele. O nativo das quebradas ficava insistindo que ainda não tinha cacife para pensar em São Silvestre, Volta da Pampulha ou meias maratonas, mas correria com desenvoltura e tranquilidade esse trajeto nada mole ao nosso lado o tempo todo. Como no primeiro desses quatro treinos que menciono no relato, junto ao jungle man Sílvio Lima, foi muito gratificante a sensação de, ao final do treino, ainda estar com sobra de fôlego e pernas. Pode ser que no Aterro do Flamengo, dia 17, eu não tenha nem um e menos ainda as outras... Mas uma coisa é certa: vou estar lá dando o meu máximo; e curtindo demais o prazer e o privilégio que será simplesmente poder alinhar para minha sétima largada de 42 km, buscando a quinta chegada. Tá tudo bem, meus amigos e amigas. E é assim que vai ficar.

 

Abraços e obrigado a todos que estiveram comigo nesses inesquecíveis treinos.

 

Fábio Namiuti

 


Álbum de Fotos do Treino

 


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