Treino Noturno no Percurso da São Silvestre

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Data: 27/12/2008 (sábado)

Horário: 21h

Distância: 15 km

Tempo aproximado: 1h55min (tempo “líquido” na faixa de 1h30min)

 

Relato:

A minha primeira Corrida de São Silvestre, em 2005, foi, sem nenhuma sombra de dúvida, a realização de um sonho de infância. Desde muito moleque, eu já falava que um dia iria participar da prova, mesmo sem nenhuma noção do tamanho da encrenca. Mas, quando finalmente isso aconteceu, um "detalhe", se não chegou a ser frustrante, tornou o cenário real totalmente diferente do onírico: a luz do dia. Na minha fantasia e, na realidade dos corredores até o já longínquo ano de 1988, a São Silvestre era noturna, acontecia na virada do ano propriamente dita. Chegar à Avenida Paulista perto das sete da noite, mas em horário de verão, com dia ainda (bem) claro, não era exatamente como o guri ainda não corredor de longas distâncias Fábio Namiuti imaginava.

 

Até corrida de F1 à noite pode, mas, como a Globo não vai querer nem a pau que a SS volte às suas origens, a única forma de chegar ao menos perto do que seria essa emoção, era fazer o treino noturno no percurso da prova. Já tinha ouvido falar dele em anos anteriores, mas ou a preparação para a prova propriamente dita, ou outros motivos quaisquer, tinham me impedido de participar. Neste ano, com a temporada de corridas já encerrada, não tinha desculpa. Era chegada a hora de, guardadas as proporções, saber o que era correr uma São Silvestre à noite.

 

Mas fácil, como nada costuma ser para mim, não seria. A minha vaga eu tinha deixado reservada já há algum tempo, logo que soube da confirmação da realização do treino. A bem da verdade, até antes disso, já que havia conversado semanas atrás por e-mail com o Luiz Bernabeu, da VO2 Assessoria Esportiva, organizador do evento, e perguntado a respeito do treino, já confirmando a minha presença independente da data. Depois da Corrida de Natal de Campos do Jordão, domingo passado, no entanto, caí de cama, peguei uma gripe forte e passei a noite de Natal de molho, deitado no sofá assoando o tempo todo o nariz (eca!) enquanto todos celebravam. Até febre deu. Chegar para encarar aquele percurso casca grossa, com Brigadeiro e tudo mais, depois de praticamente uma semana parado (pra mim, é como se fossem três, perco condicionamento muito fácil) e, embora já sem nenhum sintoma da marvada, ainda meio debilitado, era meio doideira. "Do jeito que ele gosta", alguns leitores hão de dizer ...

 

Como diria aquele super-herói teuto-niteroiense, Hoffmann-Man: MEMÓRIA MUSCULAR, ATIVAR!!! Na falta total de treinos para distâncias maiores que oito quilômetros (ou menos!) nos últimos vinte dias (ou mais!), só me restava confiar nela. Subidas, há quanto tempo eu não treinava nelas? Desde novembro... de 2007? Tudo isso, no entanto, ao invés de criar um clima de terror, me tirava toda a responsabilidade, se é que poderia haver alguma em um TREINO. Cheguei ao vão livre do MASP pouco depois das 20h, disposto a resgatar o prazer de correr, que parecia ter deixado pelo caminho em algum ponto do percurso em Aparecida e não ter reencontrado em nenhum instante em Campos do Jordão.


A lamentar, e muito, a ausência do companheiro de batalhas, Guilherme, temporariamente afastado também por uma gripe. Mas que mostrou sabedoria e maturidade ao se poupar para o desafio de verdade, a estreia dele na corrida propriamente dita, quatro dias depois. Liguei à tarde para o Jerdal, que tinha sido o outro doido a topar a empreitada, e ouvi o pai dele dizer que ele tinha saído pra dar uma corridinha. Pelo jeito, Raulzito, quando acabasse, o maluco era eu. Eu e a Janete, companheira no âmago da palavra. Que um dia ainda vai comigo quando eu for correr em NY, Paris e Bora Bora. Porque, definitivamente, se eu chamar pros 2 km de Itapopoca, ela encara também. Mas, como o tempo mudou durante a tarde, felizmente, a opinião do Jerdal também. As nuvens ameaçadoras foram embora e o camarada, mesmo já tendo feito os seus quase 10 km, resolveu topar a parada assim mesmo. Salientando que ele também estava inscrito para o dia 31/12. Corrige, Raul! O maluco não sou só eu... 

 

 

Uma ideia brilhante, com o perdão do trocadilho infame, foi a de exigirem como item de segurança o uso de lanternas durante o percurso do treino. Além de ajudar na visibilidade, deixou bem bonito o visual da massa. Alguns, sobretudo os corredores de montanha que já fizeram Extrema e outras paradas indigestas do tipo, apareceram com lanternas de cabeça. Outros, mais invocados e criativos, pareciam verdadeiras árvores de Natal ambulantes. Valia tudo, o bom humor prevalecia. Eu é que me senti meio discreto demais com a minha chinesinha de mão de três leds. Mas ela cumpriria o objetivo, e sem me incomodar, o que seria o mais importante. Outra ideia bastante válida foi a de cobrar como inscrição a entrega de alimentos ou roupas para doação às vítimas das enchentes em Santa Catarina, que saíram da mídia, mas não do problema. Contribuição modesta, claro, mas que tem também o seu valor.

 

 

Satisfação em encontrar outros colegas corredores por lá, como o Marçon e o Riso, do fórum Runner Brasil, e o Nadais. A "largada", que era pra ser às 21h, mudou durante a semana para 20:30 para acabar sendo às 21 mesmo. Sem neura. Sem notas ou avaliação, a sensação desde o começo era de estar ali simplesmente para me divertir (como deveria sempre ser, aliás). Nos despedimos da turma em frente ao MASP e seguimos Paulista afora. Que gostoso pisar livre naquele asfalto, com trânsito e gente de monte nas calçadas, mas sem aquela muvuca de vinte mil fora os pipocas brigando pra aparecer para as câmeras. Câmera que até existia, já que os repórteres globais estavam ali para registrar o evento que, segundo quem já esteve lá outras vezes, vem crescendo e ganhando merecido destaque ano a ano. Mas sem tumulto, sem estresse, sem briga por colocação. Brinquei com o Jerdal: pela primeira vez na vida, estamos entre os vinte primeiros! O bom humor era generalizado, mesmo na parada obrigatória a cada cruzamento. A galera cantava junto, parecia o final de "Nós vamos invadir sua praia". Animação contagiante. A chegada até a esquina com a Consolação deve ter levado, sei lá, quase uns dez minutos. E daí? A sensação de estar correndo com relógio, mas sem sem escravo dele, era muito gratificante.

 


Antes do treino começar, haviam sido definidos dois grupos de ritmo: um para quem pretendia correr na casa de 6 min/km e outro na de 5 min/km, com quinze minutos de intervalo entre a saída de cada um deles. Fui no primeiro, lógico, e não me arrependi da escolha. Poder correr batendo papo e respirando sem dificuldade, totalmente descontraído, achando graça em estar entre duas faixas de trânsito, igual a um motoboy sem moto, era diferente e muito bacana. A descida da Consolação já passou mais rápido, logo estávamos na Praça da República, depois na esquina famosa da Ipiranga com a São João. As pessoas que viam a massa correndo riam, acenavam, buzinavam, nem parecia a selva de pedra, onde é cada um por si. A noite nublada diminuíra um pouco o calor que fizera no final da tarde, mas a sensação de abafamento começou a bater, tal qual na minha última participação na SS. Na chegada ao Minhocão, isso se acentuou: a estufa estava ligada, mesmo em plena noite. O ritmo tinha aumentado bem, alguns ali já corriam como se estivessem competindo. Sem querer forçar, fiquei um pouco pra trás e, nisso, segurei também o Jerdal, que àquela altura vinha falando de trocar de grupo depois da primeira parada.

 


No final do elevado, pouco depois do km 6, ela chegou. Já que simplesmente não tinha como montar postos fixos de hidratação, o pessoal de apoio que foi acompanhando os corredores-treinandos, optou por fazer duas pausas obrigatórias durante o percurso. Essa primeira foi providencial, um certo cansaço de quem estava bem fora de ritmo já estava começando a bater. Entramos na fila do isotônico, traçamos os mini-torrones, ganhamos um fôlego e batemos um papo, já que a conversa tinha diminuído de uns quilômetros pra cá. Teve gente que sugeriu até fazer um pit stop no Ponto Chic, logo ali à frente, pra mandar um bauru original pra dentro. O Nadais, que vinha com o segundo grupo, chegou esbaforido (e olha que ele é fera!), falando que o pessoal ali não sabia brincar. Dei graças a Deus mais uma vez pela decisão de em que grupo ficar.

A pausa foi longa, acho que de uns bons quinze minutos, mas voltamos a trotar. A orientação era de compactar o grupo nesse segundo trecho, que realmente não era dos mais bem-afamados. Não é preciso ser nenhum Gil Gomes pra saber que em algumas daquelas ruas, principalmente naquele horário, não é nada recomendável estar sozinho. O percurso, quem já correu antes sabe, começava a ficar de gente grande a partir dali. Até então, era brincadeira de criança. Veio a primeira subida, do Viaduto Pacaembu, curtinha, mas enjoada. Subi bem pelo cantinho. Metade do percurso já tinha ido. A solidariedade era notável, parecia até quadrilha de festa junina: "olha o buraco!", "olha o poste!", "olha o degrau!", "olha o cocô de cachorro!".


O retorno à corrida em grupo, com consequente diminuição do ritmo, voltou a deixar o treino agradável. Mesmo em partes que não são, a meu ver, das mais interessantes da prova, como o trecho da Norma Gianotti e Avenida Rudge, estava gostoso correr. A subida do Viaduto Orlando Murgel foi pelo "acostamento", passando pelo lado "de dentro" dos postes (exceto no último, senão eu ia entalar). Dessa vez não teve nenhum apressadinho gritando "abre!" ali. Veio a Rio Branco, a estátua do Duque de Caxias, que dessa vez eu admirei com calma, já que parei em frente pra esperar o grupo que vinha atrás. O ritmo confortável e a despretensão tornaram o passeio bem mais "turístico" que das outras vezes. Engraçado foi o camarada correndo com a gente, falando (provavelmente) com a esposa no celular, avisando que ainda estava na Rio Branco e pedindo pra galera gritar pra provar que ele estava mesmo no treino. Dona Encrenca é Dona Encrenca, só muda o endereço, não tem jeito!


Mal começou a parte que eu mais gosto do percurso, a do chamado centro velho (amigos paulistanos, por favor me convidem pra correr os 9 km do Centro Histórico no ano que vem, ok?), já veio a segunda parada. Essa já não tão providencial quanto a primeira, o cansaço até existia, mas não era nada de anormal. Ao invés de isotônico, o tamborzão dessa vez estava era cheio de água. Não fazia mal, caiu tão bem quanto. Mandei dois big copões pra dentro. Faltava pouco pra chegar, coisa de 3 km, nem compensava portanto, mas abri um gel de melão pra dar uma garantida, psicológica que fosse. Aí o cara que vinha o tempo todo insistindo pra gente correr todo mundo junto, declarou: "daqui pra frente, é cada um por si, quem quiser fazer 3' por 1, manda ver!!!". Esperei o Jerdal voltar do orelhão (Aha! Não sou só eu que faço vinte-e-uns durante as corridas então!!!) e seguimos adiante, dessa vez com um intervalo bem pequeno, sem nenhuma companhia e caçando o caminho na escuridão.

As cenas tristes de tantas e tantas pessoas dormindo sob as marquises teve um rápido contraste com outra bonita e marcante: usando gorros de Papai Noel, um grupo grande de pessoas estava saindo para distribuir comida para os moradores de rua. Gesto nobre. No lugar onde o apoio do público sempre chama a atenção, foi diferente correr dessa vez praticamente sozinho. As subidinhas curtas que quase todo mundo que corre pela primeira vez acha que são parte da Brigadeiro, passaram e deram lugar ao começo da própria. E como é traiçoeira a danada!!! Começa tão levinha que você chega a desdenhar dela. Inclina um pouquinho e logo fica plana de novo. Alcançamos, eu e o Jerdal, vários participantes do treino que tinham saído na frente no pit stop, mostrando que ainda tínhamos bala na agulha àquela altura do campeonato. Aos poucos, ela vai ficando encardida. Não tanto quanto o Galvão Bueno tentaria vender que é, mas fica. Principalmente se você não treinou para ela. Bateu cansaço, as pernas pesaram, a falta de treino era óbvia, mas eu não me dei por vencido. Depois de algumas corridas em que fraquejei durante o ano, inclusive na última delas, não queria terminar 2008 mais uma vez andando, mesmo com muita vontade de fazer isso. Passaram pela gente corredores com porte e passada invejáveis e eu procurei, de certa forma, usar isso como inspiração. Aquela passarela parecia que não chegava nunca mais. Mas chegou. Mais um trecho inclinado, outro quase plano e (ufa!) finalmente, a esquina.


Não deu pra disfarçar a emoção. Um dos corredores que vinha com a gente concordou quando eu disse que aquela retinha final valia um ano inteiro de treino duro. Não era a primeira vez, mas passou de novo um filme na minha cabeça. Um ano de corridas, que começou com contusão, teve incertezas e dúvidas, grandes conquistas, alguns percalços, mas, sobretudo, muitos momentos inesquecíveis. Uma descarga enorme de energia me bateu ali. Pela calçada, já que na avenida mesmo era impossível, mas foram quatrocentos metros de pura adrenalina e de um prazer inenarrável, que vão entrar certamente para a antologia desses grandes momentos da corrida. Para realmente fechar com chave de ouro um ano que eu não merecia que terminasse de forma melancólica, como tinha sido domingo passado em Campos do Jordão. E para ter a certeza, se é que alguma vez houve alguma dúvida, de que a corrida, o esporte, entrou na minha vida pra nunca mais sair.

 


Chegamos em frente à Gazeta e encontramos o pessoal nos esperando. Fotos, cumprimentos e até umas gozações (na reta final recebi uma cantada, digamos, inusitada). Aquele espírito saudável de amizade que permeia as corridas e que não pode faltar nunca. Agradeço ao grande Jerdal pela companhia e o parabenizo pela disposição (correr quase 25 km em um dia não é pra qualquer um!!!). Saímos procurando o local de concentração pós-treino, que afinal estava na Alameda Rio Claro. E como caiu bem aquele Gatorade geladíssimo! Elogios, e muitos, devemos todos ao pessoal que realizou este evento. De caráter beneficente, sem visar lucro, proporcionou uma belíssima oportunidade de (re)conhecimento do percurso, zelou pela segurança dos participantes, teve o que é primordial em termos de estrutura. Cumpriu, com brilhantismo, todos os objetivos, enfim. Não vou estar nele todos os anos, até para não banalizar a coisa. Mas certamente não vai ser a minha única participação. E recomendo a todos também.

 


Então, é isso: dou férias, para mim mesmo e para meus amigos leitores. Prometendo voltar, se Deus quiser, no final de janeiro, contando novas histórias de mais um ano de corridas, a começar pelas ladeiras de Bom Jesus dos Perdões. Esperando reencontrá-los todos bem, felizes e com energia renovada para os novos desafios que virão. Torcendo bastante pelos amigos que vão estar fazendo a São Silvestre, pela primeira vez ou não, na próxima quarta-feira. Que todos alcancem os seus objetivos. E marcando, desde já, novos encontros, pessoais ou virtuais, para esse ano novo, que promete.


FELIZ 2009!


Um grande abraço a todos.


Fábio Namiuti

 

Vídeo:

Veja também:
O relato do Nadais

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