Sete anos no “Tibet

Data: 23/08/2010 (segunda)

Horário: 18h17min

Distância: 6,71 km

Tempo: 41’44’’

 

No começo da primavera de 2003, um caminhante com excesso de sobrepeso (depois de ter perdido uns dez quilos e se livrado do pra lá de indesejável rótulo de obeso mórbido), ainda com os dedos das mãos recendendo nicotina e muito pouco juízo na cabeça, de tanto ver gente sem tanta pinta de atleta dando seus piques na pista de terra da área verde encravada entre dois dos maiores bairros da cidade (Satélite e Bosque), verdadeiro oásis natural em meio às sempre movimentadas e esfumaçadas avenidas Andrômeda e Ouro Fino, decidiu que podia porque podia também tentar fazer o mesmo. Quanta pretensão... A realidade tratou de chamá-lo à razão. Foi apenas uma das laterais da pista, qualquer coisa em torno de duzentos metros. O bastante para me deixar com a sensação de quem passou o dia todo trabalhando na lavoura de cana. Descrevi, à época, dizendo que tinha chegado ao final da reta com os dois pulmões para fora e carregando um saco de cimento de cada lado. Era, aliás, o meu peso: o primeiro da casa de três dígitos. Para um camarada com pouco mais de um metro e setenta, imagina o shape. Se até hoje, com os trinta quilos que perdi ao todo, ainda não estou nenhum filé mignon.

 

Não devia ter ninguém prestando atenção. Afinal, gente fora de forma tentando fazer coisas difíceis para si é o que menos faltava naquele lugar. Mas eu me senti a própria Vanusa errando a letra do hino (o que só aconteceria anos depois, aliás). Vaiado por dezenas, centenas, milhares de pessoas imaginárias... Ridicularizado, incapaz, impotente. E outras tantas palavras ruins que eu quisesse elencar aqui. Menos uma: derrotado. Isso não. Eu estava apenas no início de um processo de mudanças radicais, começado pouco mais de um ano antes, quando descobri, quase por acaso, que era portador de hipertensão arterial, uma doença tão traiçoeira quanto silenciosa. Já tinha conseguido domar um inimigo feroz, o tabagismo, meu “companheiro” de mais de quinze anos. Começara um processo de reeducação alimentar, uma luta permanente, na qual ainda continuo até hoje (e da qual duvido que um dia saia). Incorporara ao meu cotidiano a atividade física, sedentário que estava (não era, fui praticante de esportes durante toda a infância e adolescência) há alguns anos. Não deixaria um tropeção se transformar em queda.

 

Foi esse mesmo caminhante que resolveu, nesta noite agradável de final de inverno de 2010, quase sete anos e muita história já contada depois, voltar ao mesmo lugar onde tudo começou. Não que ele não tenha sido revisitado muitas outras vezes neste longo intervalo. Foram incontáveis os treinos nas pistas de terra e de concreto, fugindo do perigo das ruas. Mas o local passou bastante tempo fechado, numa reforma que pareceu eterna, durou mais de dois anos. Fez muita falta, embora tenha sido substituído à altura pelo caminho da Quinta das Flores, um pouco mais perto de casa, inclusive. Quando eu passei de carro em frente, na semana anterior e durante pleno horário de expediente comercial, já deu a maior vontade de dar um trotinho para experimentar de novo o solo sagrado. Mas a oportunidade só foi pintar dias depois. Em um dia em que eu estava particularmente chateado, depois de ter perdido a hora na véspera (pela primeira vez na história!) e deixado de fazer uma corrida bastante especial, a Duque de Caxias em SP.

 

Geralmente eu já saio de casa correndo, o aquecimento é um trote leve nos primeiros minutos da atividade. Mas hoje resolvi fazer diferente. Fui caminhando, curtindo a paisagem, no pouco mais de um quilômetro daqui até o local. E qual não foi a minha surpresa ao ver que a reforma ainda não tinha sido totalmente concluída. Pelo menos não a parte de iluminação. Totalmente às escuras, a Área Verde (o nome oficial é Praça Doutor Roberto Monteiro de Andrade) agora aberta, sem as telas nas duas entradas pelas avenidas, parecia uma cidade fantasma. Nada daquele agito dos velhos tempos, onde caminhantes e corredores disputavam espaço a tapa (havia uma certa cartilha de etiqueta não-escrita, que dizia que os primeiros deveriam usar a pista externa, de concreto e os demais, minoria, a interna, de terra). A terra não existia mais. Estava coberta por uma camada de brita (péssima ideia, que já tinha sido colocada em prática na reforma do Vicentina Aranha e depois abandonada, o que provavelmente vai ter que acontecer ali também). Restava o concreto, demarcado a intervalos regulares, mas que era impossível de ver naquele breu. Sim, eu não fui embora. Era o único doido (no começo, depois outros se juntariam a mim), mas comecei a correr, sem luz nem nada (e precisa?), dando a primeira das dez voltas que tinha previsto fazer, também como nos velhos tempos. E ainda bem que estava tudo escuro e que não tinha quase ninguém (apenas três ou quatro caminhantes corajosos). Porque naquela mesma reta de sete anos atrás, percorrida com extrema dificuldade, me veio um nó na garganta. Ao lembrar que agora eu era capaz de fazê-la 210 vezes e um pouquinho mais, sem parar (ou quase). As vaias de sete anos antes se transformaram em aplausos. Baixos, quase inaudíveis. Mas acho que (modestamente) merecidos. Marejei.

 

E quantas lembranças mais vieram. A da primeira vez que eu vi um cara “empurrando uma árvore” e me perguntei o que aquele maluco estava fazendo (dá pra perceber que eu não alongava, ?). A da “esquina” (uma das quinas da pista) com cheiro de feijão vindo de uma casa vizinha, que dava a maior fome sempre que eu passava por lá (e olha que nem feijão eu como!). A da vez em que eu, em pleno treino de tiros, puxei oxigênio e no lugar veio aquele cheiro verde jamaicano (se quando era iluminado já rolava, imagine você agora). O cano de esgoto onde, ainda na pré-história (quando eu e a Janete só fazíamos ali nossas caminhadas), encontramos um filhote de gato desnutrido, machucado, sujo, com o pêlo todo cheio de carrapichos. Levamos pra casa, tratamos e estamos com ele até hoje, é nossa mascote. A primeira canelite, obtida ali mesmo no concreto, em uma combinação de peso acima da média e informação abaixo. Onde já se viu correr com tênis sem amortecimento (quando ainda não era moda, claro)? A primeira vez em que eu consegui dar uma volta abaixo dos três minutos, pace abaixo de 4’30’’ (sem saber inclusive o que era o tal de “peisse”). Aliás, e a primeira vez em que eu consegui dar uma volta inteira correndo, simplesmente? Quanta alegria... Que me deu coragem (ou cara-de-pau) de sair dali e tentar correr na rua (que eu quase perdi, de tanto ouvir piada de motorista engraçadinho). E, tempos depois, de ousar participar da primeira corrida de rua (que nem na rua foi, mas no Horto Florestal de Campos do Jordão, e logo uma de 10 km pra começar). Quanto aprendizado... Eu, que sempre me achei o rei da cocada preta em tudo o que fazia, tendo lições compulsórias de humildade ao tentar fazer algo que, nitidamente, não era pro meu bico. Onde quase todo mundo era infinitamente superior a mim, até mesmo os mais pangas. Onde eu reaprendi a admirar as pessoas, independente de sua origem ou conhecimento. E a valorizar virtudes para as quais só dava bola na teoria.

 

Nestes quase sete anos, muita coisa aconteceu. A corrida entrou de vez na minha rotina e me transformou em uma pessoa melhor, mais saudável, mais equilibrada, menos autocentrada. Trouxe muitas amizades sinceras, mais talvez que em todo o resto somado da minha vida. A oportunidade de fazer algo de que tanto gosto e sempre gostei: escrever, contar minhas histórias. Ter quem as leia e, pasmem, até goste! Se bobear, vai até comprar quando virar livro... (AJUDE, VOTE AQUI!) Neste intervalo, surgiu também uma nova vida na nossa, a do meu filho. Que, felizmente, nunca me viu fumando. Mas me viu tantas vezes correndo que já associou a corrida, o esporte, como parte da vida, coisa tão rotineira quanto tomar café da manhã. Aproximou e me uniu ainda mais à minha esposa, que não só é minha companheira, mas principalmente, minha fiel escudeira. Meu staff pessoal, minha fotógrafa, minha técnica, minha psicóloga, minha carrasca (às vezes). Meu esteio, sempre. Permitiu que eu conhecesse muitos lugares, alguns em que eu sempre sonhei, mas nunca imaginei que iria estar. E que, possivelmente, vai me levar a tantos mais, onde sempre sou recebido com abraços. Não foram, claro, sete anos só de felicidades. Ninguém é feliz quando dá uma topada no dedão (ou coisa pior) ou quando chega a fatura do cartão de crédito. Mas trouxe muitos momentos felizes. Talvez também mais que em todo o resto da minha existência.

 

Foram apenas dez as voltas, percorridas em ritmo suave (e o medo de tropeçar e sair catando cavaco naquela escuridão?). Quase 42 minutos, contra os 37 que eu fazia em média nos treinos por ali. Deu impressão que passaram rápido demais, de tão bom que estava. Mas tempo era o de menos. Recordes mundiais pessoais, resultados, colocações, ritmos, tudo ficou pequeno e insignificante, diante da enorme satisfação que foi dar cada um daqueles passos. Até a birrinha de ter perdido a corrida do domingo deu lugar a um sorriso de orelha a orelha. Quando alguém me perguntar por que eu corro, ao invés de responder, vou levar pra fazer um treino desses junto comigo...

 

Abraços,

 

Fábio Namiuti

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