On the road (pé na estrada)

Data: 09/05/2009 (sábado)

Horário: 8h30min

Distância: 28,34 km

 

Vai chegando cada vez mais perto o dia da minha segunda maratona. Confesso que não me preparei para ela como gostaria, muito embora tenha treinado bastante e feito (quase) tudo como manda o figurino: período de base no começo do ano, com bastante rodagem e treinos de força na musculação durante seis semanas; e uma planilha de outras dezesseis semanas com treinos variados, sobretudo longões de distância progressiva, que chega agora à sua décima terceira semana, para entrar a partir da próxima na fase de polimento. Teoricamente, tudo muito bonito. Difícil está sendo cumprir na prática. Os treinos mais longos inicialmente previstos foram encurtados na marra, por conta de problemas diversos, mas principalmente pela dor que surgiu acima do tornozelo depois daquela meia maratona com um buraco no caminho, na USP em abril. Restava, portanto esta, a quarta e última tentativa de passar, ou pelo menos me aproximar ao máximo dos 30 km ou das três horas de rodagem, marca psicologicamente importante para quem pretende concluir bem uma maratona. Tinha a expectativa de contar com a companhia de vários amigos corredores nesta batalha. Por razões variadas (e justificadas), todos foram capitulando. Mas um ficou: Fabio Matheus. Parceiraço. Guerreiro. Já tinha mostrado outras vezes, principalmente nos 31 km do Desafio de Pinda do ano passado que não era de fugir da raia. Não fugiria, mais uma vez.

 

O percurso do treino – 1ª parte

 

Antes até do horário combinado, passei na casa dele, porque o caminho pela frente era longo. Foi só a conta de encher as garrafinhas do cinto de hidratação para a gente sair pra briga, com o clima ajudando bastante. Sol devidamente escondido por detrás de muita nebulosidade. Temperatura baixa, um ventinho gelado batendo até. Minutos depois das oito e meia e após uma curta caminhada de aquecimento, pegamos a avenida rumo ao distrito de Quiririm. Ruas vazias, pouco movimento de carros e menos ainda de pedestres. Bastante espaço para a gente começar a procurar o ritmo ideal para esse trotinho inicial. Sensação gostosa de botar o corpo em movimento.

 

Logo de cara, depois do breve trecho plano, já vinha um belo cartão de visitas do percurso: a subida do Abaeté. Para quem não conhece ou não está lembrado, a célebre ladeira que botava quase todo mundo pra subir engatinhando no quarto quilômetro do percurso clássico (o que valia até o ano passado) da Prova General Salgado. Subi-la logo no começo e sem nenhum compromisso com resultado foi bem diferente, mais agradável. Proporcionou o aquecimento que eu e o xará precisávamos para o restante do trajeto. Mais algumas pernadas pelas ruas do bairro CECAP e já estávamos quase chegando a ela, a rodovia Floriano Rodrigues Pinheiro, estrada que liga Taubaté a Campos do Jordão. Onde passaríamos boa parte dessa manhã de sábado. Sacamos a câmera e tiramos as primeiras fotos no acesso a ela, com pouco mais de 4 km percorridos.  

 

 

O acesso à estrada de Campos

 

Depois do início na boinha, o ritmo na chegada à estrada já era bem diferente. Não estávamos, eu e o xará, correndo forte, com o coração na boca como em uma prova de 10 km, mas em uma velocidade de cruzeiro que, se mantida em um percurso longo como o da maratona, seria sensacional (pelo menos pra mim). A minha planilha previa um pace médio de 5:49 min/km para esse longão. O feeling era de estar abaixo disso, e com folga. Sem com isso sair da zona de conforto. Com problemas na faixa peitoral do frequencímetro, acabei correndo sem monitorar os batimentos cardíacos hoje. Mas certamente eles não estavam muito altos. Conseguíamos, a essa altura, conversar tranquilamente, colocar em dia papos de corredor.

 

Precavidos, logo que chegamos à pista, já a atravessamos e fomos correr no contrafluxo. Nos fazia muita falta a companhia de um grande parceiro, que certamente estaria correndo com a gente se não tivesse sofrido um acidente durante seu treino na última segunda-feira. Força aí, Toninho Corredor!!! Dos males, o menor; esse braço quebrado vai sarar logo e você certamente logo vai estar de volta, fazendo aquilo que gosta. Tudo na vida é aprendizado e o que aconteceu contigo vai servir sim de alerta para que todos nós fiquemos mais atentos e tomemos ainda mais cuidado durante nossas corridas por aí.  

 

Além do prazer de correr em si, tudo estava sendo muito divertido também. A dupla de corredores na rodovia chamava bastante a atenção, o pessoal que topava com a gente, a pé, de bike, de caminhão ou de carro (que as patroas não nos leiam, mas até um cheio de mulherada), acenava, dava bom dia, buzinava. Legal também era poder ver lugares já bastante conhecidos, mas sob uma outra perspectiva, passando bem mais lentos diante dos nossos olhos, podendo ser devidamente apreciados, coisa totalmente impossível quando você passa a milhão de carro. Detalhes que tornavam ainda mais agradável o passeio matinal.

 

 

O retão sem fim / Xará passando em frente ao Mercato

 

Depois de alguns longos retões estrada afora, logo estávamos chegando à ponte sobre o Rio Paraíba, cenário de tantos outros treinos e corridas por aí. Um pouco mais à frente, outra ponte, sobre o ribeirão dos Motas, com a placa indicando o limite entre os dois municípios. Por enquanto, tudo planinho e bem tranquilo, mais de dez quilômetros já tinham ido quase sem percebermos. Abri o primeiro gel de carboidrato pra dar uma força, ainda tinha muito caminho pela frente. Mas a alegria não duraria muito. Viriam as primeiras oscilações. Na chegada ao bairro Maracaibo, parte da cidade bem afastada do centro de Tremembé, a primeira subida, não muito forte, mas bastante longa. O papo de frases longas e com poucos intervalos mudou, e mudou bastante. Virou monossilábico, muito mais para incentivar a toada morro acima do que para qualquer outra coisa. O treino tinha virado coisa séria, definitivamente.

 

Passando por sobre o rio Paraíba / A divisa Taubaté-Tremembé

 

Depois da subida, como prêmio, uma bela descida de quase igual distância e intensidade. Tínhamos passado batido pela primeira opção para o reabastecimento, ainda com menos de uma hora de treino. E eu não via a hora de ter uma segunda. A parte mista tinha feito estrago, o cansaço já começava a bater. O tornozelo, que chegou a incomodar um pouco no finalzinho dos meus 16 km na esteira na última quinta à noite, não doía, mas, em compensação as panturrilhas, bastante judiadas pela dobradinha de provas no último final de semana; e poupadas estrategicamente durante os últimos dias, é que davam dolorosos sinais de vida. Era hora de um pit stop. Com cerca de 17 km já deixados para trás, avistamos o restaurante em forma de castelo na beira da estrada e por lá mesmo paramos. Tínhamos então 1h41min decorridos no relógio.

 

Foi como nascer de novo! Cada um mandou um isotônico de limão trincando de gelado pra dentro, enchemos de novo as garrafinhas d’água que já tinham secado, tomamos mais um gel. De troco, o xará pegou um bombom que saiu nada menos que por R$ 1. Se precisasse de gel extra, tinha, a R$ 3 o sachê. Intervalo bom, mas curto. Hora de voltar ao batente.

 

 

Começando a ficar cansados / A hora do pit stop

 

Um pouquinho mais de SP-123, felizmente desta vez praticamente só em declive, e chegamos à rotatória de Tremembé. A partir daí, mudança de direção, entramos à direita em outra estrada, a Pedro Celete. Uma outra longa reta, quase totalmente plana, ladeada por muitas plantações de arroz. Com acostamento até largo, mas meio surrado, com muitos desníveis, alguns buracos e um bocado de terra fofa. Inusitado foi, com quase vinte quilômetros de treino, passar por uma placa marcando km 0. Bateu a lembrança daqueles velhos jogos de tabuleiro da infância: “Volte ao começo do jogo”.

 

 

Rotatória de Tremembé / A placa do km Zero

 

Até então, a temperatura beirava o perfeito para correr. O sol, no entanto, finalmente acabou saindo detrás do monte de nuvens que o escondiam, e esquentou tudo rapidinho. Junto com o cansaço, natural da distância já percorrida, isso tudo começou a mudar os planos. Já ficava meio na cara que os 32 km iniciais, que tinham se transformado em 36,5 na última medida feita pelo xará no MapMyRun seriam ilusórios. Seguíamos correndo rumo a Tremembé, que custava à beça a chegar. De passagem, em algum ponto dessa parte do trajeto, ouvi alguém comentar “olha, eles estão treinando para a corrida do Geninho”. O detalhe é que a tal corrida do Geninho, em homenagem a um atleta local e a ser realizada no mesmo dia da maratona (31/05), tem apenas 5 km. Quem nos dera...

 

Quase cinco quilômetros de retão depois da rotatória, avistamos de longe a ponte da entrada da cidade. E dali pra frente, subidas. Nada muito forte. Mas suficientes para desanimar um pouco e forçar a quebra. Fui diminuindo, vendo o xará abrir alguma distância, até parar de vez, logo após passar por sobre a ponte. Acabou sendo de comum acordo. Ele também estava bem desgastado pelo calor repentino e, principalmente, pelos já quase 25 km de trajeto. Entramos andando em Tremembé, ansiosos para chegar a um trailer de caldo de cana, encarar um copo bem gelado, para ao mesmo tempo refrescar e repor a glicose. A caminhada foi benéfica. O fôlego, deu pra perceber, estava quase intacto, o cansaço era bem mais muscular. O cara da garapa ainda não tinha chegado, o que decepcionou um pouco. Cruzamos a cidade a passos lentos, voltando a conversar, confabulando sobre as possibilidades dali pra frente, se valia a pena ou não tentar correr mais alguns quilômetros. Apesar de bem mais curto o caminho de volta por ali, seriam mais de 10 km até a casa do xará.

 

Começando a pegar a estrada de volta, apareceu uma barraquinha com um camarada vendendo mexericas ponkan; e ali mesmo a gente parou. Meia dúzia pelo mesmo R$ 1 do bombom ali de trás, e que caíram deliciosamente bem. A pausa no ponto de ônibus para devorá-las foi um novo renascimento. Deu um gás e tanto para, mesmo morro acima, fazer com que a gente voltasse a correr, e bem. Só não deu para resistir quando apareceu um outro trailer, desta vez aberto, pouco mais de 1 km à frente. Matamos finalmente a vontade de beber o caldo de cana, enchemos pela terceira vez no dia as garrafinhas do cinto de hidratação do xará. Deu vontade de fazer a feira: tinha paçoca, queijadinha, doce de leite e um punhado de outras guloseimas. Mas, acreditem, a gente estava ali para correr e não para comer, hehehe ... Seguiríamos adiante, até onde desse, pra esticar ao máximo esse treino de hoje.

 

Intervalos para as ponkans e para a garapa

 

O cansaço era evidente, as dores aumentavam em progressão geométrica, mas, mesmo sob um sol que àquela altura, quase meio-dia, já castigava pra valer, a sensação de continuar correndo era gratificante, aquela que só quem já encarou um treino desse tamanho sabe dizer como é. Passamos novamente pela divisa entre as duas cidades, um verdadeiro tobogã na volta a Taubaté. Pelas ruas bastante movimentadas e calçadas bastante estreitas, ganhamos companhia para o final do treino. Dois cachorros vira-latas começaram a nos seguir. Fiquei meio bolado no começo, mas depois deu pra ver que era só mesmo carência de bicho de rua, coitados deles. Correram atrás da gente por mais de um quilômetro. E tinham fôlego pra bem mais. Quem já não tinha muito mais era a gente. Depois de passarmos pela chamada ponte seca, o xará avisou que ia parar. Somando tudo, pouco mais de 2h46min de treino. Com a medida que o xará enviaria depois por e-mail, o pace médio foi de 5:52. Muito próximo do planejado, bastante satisfatório, ainda mais levando em consideração o up & down, principalmente este na volta.

 

O percurso do treino – 2ª parte

 

Foi a conta de eu começar a andar e já sentir em seguida uma puxada forte no pé direito. Parecia cãibra, mas não era. Ficou ruim até pra caminhar. Um camarada veio perguntar o que era, se estava tudo bem. Tirei os tênis e fui quase rastejando até uma das faculdades da Unitau, de onde o xará ligou e pediu o resgate da Giovana. Cansaço absoluto, um pouco de dor, mas muita alegria também. O xará resumiu bem, ao dizer que estava orgulhoso da gente. Ele está mais do que pronto para fazer os 25 km duas vezes. Os do Circuito Bar do Mané, no dia 24/05, em ritmo de festa. E também os da prova que faz parte da Maratona de SP, esses pra valer, nos quais com certeza vai se dar muito bem. E eu, se não consegui fazer o treino exatamente da distância que queria, acima dos 30 km, cheguei perto disso e considero que tenho condições de pelo menos tentar fazer a maratona no final deste mês. Sem neuras, sem compromisso nenhum com tempo de conclusão, com a intenção única de correr até o fim e de chegar inteiro, com saúde e pronto para as próximas. Isso eu acho que consigo.

 

Presenteei, ao final, o xará com uma medalha extra (a que a Janete ganhou na caminhada) da prova de Caçapava. Gesto simbólico, como agradecimento pela companhia amiga e valorosa neste belo treino de hoje. O prêmio de uma corrida que representou, como algumas vezes foi citado neste relato, um renascimento. Que trouxe um surpreendente bom resultado em um momento de dificuldade (corri naquele dia mesmo com uma crise de rinite alérgica). Que me mostrou novamente, como às vezes a gente esquece, o quanto é prazeroso e gratificante correr. E que ele, Fabio Matheus, mencionou como sendo um dos meus relatos de corrida de que mais gostou até hoje. Valeu, xará! Obrigado por tudo, mais uma vez. É um privilégio e tanto ter um grande amigo como você. Que venham muitos outros treinos como esse. Galera que perdeu, vocês estão convidados desde já.

 

Esse é o cara!

 

 

Vídeos:

Veja meu livro de visitas | Assine meu livro de visitas | Contato

 

Topo da Página Volta | Página Principal Volta | Treino Anterior Volta | Próximo Treino Volta

PUBLICIDADE