O paraíso é uma descida com sombra

Data: 01/02/2009 (domingo)

Horário: 6h22min

Distância: 17,9 km

Tempo: 1:57:18

A corrida é um meio mais que propício para fazer amizades, isso é fato comprovado. Não cientificamente, mas na prática, a cada nova prova de que participo ou novo treino que faço. A empatia entre corredores quase sempre é instantânea. Aquela história que a gente acha que só aconteceu com a gente, acaba descobrindo que foi quase igual com outro corredor. Bastam uns dez minutos de papo, ou às vezes até menos, para você encontrar um novo amigo de infância, com interesses muito parecidos com os seus e muita coisa em comum. Independente de idade, gênero, classe social, religião, partido político ou time de futebol para que se torce.

 

Uma das primeiras amizades que fiz nas corridas, há mais de três anos, na minha primeira participação na Prova “Bar do Mané” em Guaratinguetá, foi com o seu Antônio. “Seu” por respeito, o camarada tem apenas cinco anos a menos que o meu pai. Mas, na verdade, ele é o Toninho Corredor, figura muito querida de todos que têm o privilégio de conhecê-lo. Pessoa de uma simpatia ímpar, gente boa até a medula, daquele tipo que, se encontrar cem pessoas na rua durante um treino longo, é capaz de falar “bom dia” para as cem e mais duas. A forma como nos conhecemos é uma história curiosa: eu o alcancei no trecho final do percurso, lá pelo oitavo quilômetro e viemos conversando praticamente até o final da prova. Ao mesmo tempo, sem saber de nada, a Janete, minha esposa; e a Ana, esposa dele, também se conheciam e conversavam enquanto aguardavam as nossas chegadas. Era mesmo pra ser, né? Antes disso, em uma outra corrida no mês anterior aqui em São José dos Campos, estávamos lado a lado na largada. Só fui descobrir isso tempos depois, vendo as fotos no computador.

 

De lá para cá foram umas boas quarenta corridas juntos, entre elas duas muito especiais: as Meias do Rio e Frei Galvão de 2007. Uma “competição” saudável (e bastante equilibrada) por resultados, já que temos níveis de condicionamento bem parecidos. No começo, eu perdia quase sempre pra ele, depois andei alcançando e virei o jogo. Não conto há algum tempo, mas acho que o placar deve estar empatado. Até “apostamos um almoço” uma vez em Caçapava. Ganhei e não levei na hora, mas já foram tantas refeições juntos, na casa de um, do outro, ou nos piqueniques pós-provas por aí, que a “dívida” já está mais que quitada.

 

Nesta última semana, fui convidado por esse meu grande amigo, que aniversariou no dia 27, a visitá-lo em sua casa de praia em Ubatuba, litoral norte de SP, onde ele merecidamente goza as suas férias desde o final de 2008. Fez por merecer, ao longo de uma vida toda de bastante trabalho. Aceitei o convite com muito prazer, ainda mais depois que combinamos de fazer um treino pela Rio-Santos no domingo pela manhã. Na minha planilha de treinos para a Maratona de São Paulo, estava previsto um de 19 km. Não poderia ser mais estimulante fazer o percurso mais longo do ano até então tendo como cenário lindas praias e muito verde.

 

Depois de relaxar na praia à tarde e de uma noite bastante animada no sábado, reunido com os vizinhos de condomínio dele (um pessoal muito bacana, por sinal), degustando um legítimo puchero espanhol (espécie de feijoada, só que feita com grão-de-bico), seguido de diversos tipos de sobremesas; e nos divertindo em disputadíssimas rodadas de bingo, acordamos bem cedo na manhã seguinte (cedo mesmo, 6 horas da matina!!!) para correr. O dia ainda não tinha nem amanhecido quando saímos, o lusco-fusco predominava, mas dava para ver que, sem uma única nuvem no céu, o calor prometia ser devastador, como já tinha sido inclusive na véspera. Cada qual com sua garrafinha de água na mão, começamos o trote bem lento. Tendo dormido bem pouco durante a noite e nada acostumado a correr neste horário, estranhei um pouco no começo, mas a sensação de incômodo inicial não demorou a se transformar em algo agradável como sempre. Saímos da rua de terra e terreno bastante irregular para ganharmos o piso da ciclovia estreita e meio coberta de vegetação ao lado da rodovia, sentido Ubatuba. O dia começava a clarear.

 

O puchero

 

Correr em ritmo lento, os the flashs que me perdoem, é simplesmente delicioso. Dá pra aproveitar melhor o passeio, ver o que está ao redor, sentir o ar puro (neste caso) e muitos outros aromas, ouvir ruídos que, no dia-a-dia, costumam passar absolutamente despercebidos. É quase uma experiência sensorial. Permite até conversar, coisa que a sangria desatada das competições e treinos puxados torna absolutamente inviável. A brisa da manhã ainda era fresca, o calor prometido parecia coisa distante. As praias, primeiro da Maranduba, depois da Lagoinha e Dura, eram um belo cenário neste amanhecer de domingo. Quando me dei conta, já estávamos correndo há quase meia hora.

 

Maranduba, Ubatuba

 

Que o jantar estava uma delícia, isso não se discute. Mas não era propriamente uma comida leve, principalmente para quem pretendia correr dezenove quilômetros no dia seguinte. Se eu já tenho costume de repetir até Miojo, imagine então um prato como esse... O fato é: comi demais. E, ao acordar cedo desse jeito, com o danado do Toninho Corredor me chamando pra sair o mais rápido possível, antes que o sol começasse a esquentar, já viu, saí sem fazer o ritual matinal completo. Resultado: isso mesmo que você pensou! Tive que fazer um pit stop forçado no primeiro mercadinho à beira da estrada que apareceu. Resolvido o problema, comentei com o companheiro de jornada: UFA, AGORA DÁ ATÉ PRA CHEGAR EM PARATY!!!

 

O trecho plano foi bom e, como tal, durou pouco. Mais ou menos entre o quarto e o quinto quilômetro, começava uma bela subida. Quem disse que o litoral não as tem, ou só tem nos morros? Na beira da estrada mesmo, um desnível de mais de oitenta metros, em alguns trechos, com inclinação superior aos 5%. Começou levinho, mas aos poucos foi encardindo. Bateu cansaço no meio da lomba, deu vontade até de andar. Mas resisti bravamente a este desejo. Seguimos lento, devagar e sempre. Movimentei os braços, inclinei o corpo à frente e fui embora. Teve mais de um quilômetro e durou bastante tempo, mas acabou. Quando veio a descida correspondente, compensou cada metro morro acima. Soltar os braços e deixar o corpo ir no embalo foi uma delícia.

 

Especialista na região, o Toninho foi descrevendo detalhes do caminho. Um hotel ou pousada aqui, um restaurante ali, os nomes das próximas praias e das outras vizinhas que não estavam visíveis neste trecho de litoral meio recortado, a aldeia indígena que ficava cinco quilômetros trilha adentro. E, mais do que qualquer outra coisa, as outras vezes em que ele já tinha corrido por ali. Lembrou até o valeparaibano Renato Teixeira: “eu conheço cada palmo deste chão”...

 

Depois de passarmos pela ponte por sobre o Rio Escuro, tínhamos ainda mais uma boa subida pela frente. Ao ver o tamanho da encrenca, decidi que o melhor, já que o sol já tinha subido, estava batendo no rosto e começando a esquentar de verdade, era não seguir muito adiante. À esquerda, quase no final do morro, tinha a saída para a Estrada do Rio Escuro, caminho alternativo para o centro de Ubatuba, pelo qual inclusive o amigo corredor já tinha passado em uma caminhada de mais de quatro horas com a esposa e alguns amigos. Dei um pique e cheguei lá rapidinho. Era a hora do bate-e-volta. Tínhamos rodado cerca de 9,5 km. Fosse um dia nublado, talvez desse para ir até a cidade e depois voltar de ônibus. Ficou para uma próxima oportunidade. Abri ali o gel de carboidrato, aproveitei o consumo para descansar alguns poucos minutos. E pegamos o caminho de volta, começando em descida.

 

Rio Escuro

 

Agora o sol estava nas nossas costas. Era um alívio, bem melhor que encará-lo de frente, ainda mais para quem não consegue usar nem óculos escuros e nem boné durante treinos ou provas. Mas não evitava o principal: o calor. Ainda eram pouco mais de sete e meia da manhã, mas ele já beirava o insuportável. Tive que dar razão para o amigo: saíssemos um pouco mais tarde, não haveria treino. O trechinho plano entre os dois picos do percurso era curto, devia ter menos de um quilômetro. A descida gostosa da ida se transformou em uma subida invocada; com o calor, ainda mais. O ritmo ficou abaixo do de trote, mas, sem pressa, chegamos ao final dela. Mais uma vez compensou o esforço. Primeiro, pela bica d’água que existia no final da ladeira. Um verdadeiro oásis no deserto. Enchemos por lá as garrafinhas, uma já seca, outra com água já quente. E a vontade era de não sair de lá nunca mais. Além da água de mina puríssima, mais gostosas ainda eram aquelas gotinhas caindo e batendo no rosto, braços ou qualquer outra parte do corpo, todas elas tostadas e fervidas. Uma dádiva.

 

A partir dali, além de morro abaixo, foi o único trecho do trajeto de retorno em que o sol se escondeu. Não quis nem olhar atrás de quê... Não consegui segurar a frase: O PARAÍSO EXISTE... E É UMA DESCIDA COM SOMBRA!!! O Toninho riu e, claro, concordou. Por alguns instantes, enquanto seguia morro abaixo, senti algo meio difícil de descrever. Talvez um misto de prazer, alegria e gratidão. Por estar vivo, saudável, poder praticar uma atividade física que me traz tanto bem-estar, qualidade de vida, amigos e momentos como estes.

 

Só que o momento de reflexão foi breve e teve que ser interrompido de forma abrupta, porque depois que a descida acabou e o fogo acendeu de novo, a coisa ficou braba. A temperatura foi subindo em progressão geométrica. Se eu tivesse que apostar, diria que bateu nos 34 ou 35 graus, com a umidade típica do litoral proporcionando uma sensação térmica de ainda mais calor. Ainda faltavam quase cinco quilômetros pra chegar, mesmo planos, àquela altura já bem sacrificantes. A conversa já era de frases mais curtas, as minhas respostas já eram bem mais Ô do que EU MORO PRA LÁ DE PARANAPIACABA. Cabeça quente, pés ainda mais. Utilizando pela primeira vez na rua o meu novo AVI-Trail (na falta de trilha, pelo misto de asfalto, terra e grama), o sentindo confortável, mas com o plástico impermeabilizante o deixando mesmo meio abafado. Foram quilômetros finais bem lentos e arrastados. Eu olhava para todos os morros do caminho e achava que era o mesmo que eu via da janela da casa do Toninho. E não era. O morro certo não chegava nunca !!!

 

Quando a última ilusão de ótica aconteceu, eu achando que finalmente tinha chegado a hora de virar à direita e pegar de volta a rua de terra... e não tinha, desanimei. Faltava bem pouco pra chegar, mas era só um treino, afinal. Resolvi andar, tinha esse direito. Retomei um pouco do fôlego, me escondi na sombra do ponto de ônibus. Terminamos andando os poucos metros finais. Na esquina certa, tinha mais um mercadinho e o pit stop dessa vez foi para o reabastecimento. Duas garrafas de isotônico geladinhas, uma para cada um. Lembrou aquela da chegada da São Silvestre em 2007, na verdade a melhor coisa de toda a corrida. Falem o que quiser de cerveja, mas a verdadeira BOA pra mim é essa aí... Nobel de Química para o inventor!!!  

 

Percurso do Treino

 

Altimetria do Treino

 

O trecho meio esburacado que, às seis e pouco da madruga, foi percorrido no trotinho de aquecimento, dessa vez foi na base da caminhada de resfriamento mesmo. Os 19 km da planilha não foram cumpridos à risca, se tornaram menos de 18 (medidos posteriormente no MapMyRun, apenas 17,9 km, com precisão comprometida devido a alguns trechos com fotos de satélite de baixa resolução). Sem nenhum problema. Independente dos metros a mais ou a menos, foi uma experiência das mais agradáveis, mais um treino marcante, ao lado de um grande amigo a quem eu homenageio e agradeço através deste relato. Obrigado, Toninho e Ana, por receberem a mim e à minha família em sua casa, pela amizade e companhia em tantos momentos. E por me proporcionarem a oportunidade de ter feito um treino tão bacana como foi este. Muitos outros desses virão, se Deus quiser. Na praia, aqui em São José ou nas muitas corridas que ainda vamos fazer juntos por aí.

 

 

Ana e Toninho

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