Legião Rural

Data: 28/03/2010 (domingo)

Horário: a partir das 8h12min

Distância: 24,07 km (eu e Toninho), entre 15 km e 30,6 km (galera)

Tempos: aproximadamente 2h46min (eu)

 

Comemorando os 50 anos do saudoso Renato Russo e também os meus 3.9, completados nesta última sexta-feira (agradeço, de coração, a todos que mandaram felicitações por e-mail, telefone, SMS, Orkut, Facebook, Twitter, comunidade de corredores do CorridasDeRua.com e até por telepatia), combinamos de reunir a galera para mais um treino coletivo. Até então, os anteriores haviam sido feitos ou em São José, ou em Taubaté. Desta vez, ficamos pelo meio do caminho, geograficamente falando. Recebemos o convite do nosso amigo Moacir, que aceitamos com muito gosto; e nos dirigimos nessa bela manhã de domingo até Caçapava, conhecida pela merecida alcunha de “Cidade Simpatia”.

 

Nosso organizador Moacir

 

Uma complicação adicional foi passar praticamente todo o dia que antecedeu este treino fora de casa. Ganhei dois convites para o Hopi Hari e resolvi levar a Janete e o Dudu para um passeio. Além dos mais de 170 quilômetros que separam o parque temático de minha casa, foi um tal de ficar em pé esperando em enormes filas para cada brinquedo. Chegamos em casa exaustos, mas felizes. A vida não se resume a corridas e preparação para elas. A alegria e o sorriso do meu guri sempre valem qualquer esforço.

 

Mas o treino também era importante. Tanto que até o despertador resolveu, por conta própria, adiantar uma hora e tocar mais cedo. Acordei meio zureta às 5h15min, com tudo ainda escuro, sem saber direito onde estava. Quando vi o quanto estava adiantado, tentei retomar o cochilo, mas foi complicado. Às 7h25min, vinte antes do combinado, já estava na Praça da Bandeira. Só não fui o primeiro porque ali já estava o mineiro Toninho Corredor, um daqueles que dormem na estação, mas não perdem o trem.

 

A Praça da Bandeira, local da concentração

 

Os próximos a chegarem foram o Renny (que eu já conhecia da internet e de vista, de algumas corridas) e o nosso anfitrião. Já além do horário marcado, nos demos conta de que o resto da turma nos esperava do outro lado da praça. Atravessamos e fomos nos juntar a eles. O grupo era numeroso, dezoito corredores no total (mais um se juntaria a nós já com o treino em andamento). Boa parte deles pretendendo fazer a menor das três opções de distâncias (quase 15 km), um grupo menor optando pela intermediária (24 km) e, comigo, na turma dos sem dó das panturrilhas, além de Toninho e Moacir, também Fabio Matheus, Michel e Sílvio. Instruções e recomendações devidamente fornecidas pelo host, novamente atravessamos a praça e, com doze minutos depois das oito horas, seguimos em direção à Av. Cel. Alcântara, caminho inicial de tantas das corridas que já tínhamos disputado na cidade. A temperatura era amena, o dia amanhecera nublado. Mas com aquela inconfundível cara de que iria abrir a qualquer momento.

 

Galera antes do treino

 

A ideia, como sempre, era seguir em bloco inicialmente, pelo menos até chegar o primeiro ponto onde pudesse haver algum tipo de dúvida sobre por onde seguir. Mas as diferenças de ritmo, também como sempre, ficaram claras já nas primeiras passadas. O grupo dos “não-brincantes”, com Manoel, Zebra, Wagner, Moacir e outros papa-léguas sumiu à frente, enquanto o nosso, ainda bastante numeroso, animado e cheio de fôlego, se posicionou um pouco mais atrás. Corriam comigo, além dos malucos da distância maior, também a Tania, o Bruno, o Renny e a Sílvia. No trecho da Av. Brasil, passando ao lado da rodoviária, as frases da conversa ainda eram longas e, durante o papo, tentávamos calibrar os gadgets para nos dizer a quanto estávamos rodando exatamente. Qualquer coisa entre 5’50’’ e 6’20’’, trotezinho tranquilo, gostoso, só pra começar a aquecer. Enquanto o sol não vinha para ajudar nessa tarefa...   

 

O percurso do treino

 

Ao final da longa reta, chegamos à Via Dutra e atravessamos por debaixo dela, numa passagem estreita, de calçada onde mal cabia uma fila indiana. Do outro lado da rodovia, parte menos povoada da cidade, chegamos à uma primeira bifurcação. Pegamos o caminho da esquerda e encaramos uma primeira subidinha. Falei, não lembro agora se em voz alta ou não, um ah, pra quê isso?  Sabendo, de antemão, que elas, as rampas, seriam muitas. A altimetria do treino, previamente estudada e comentada pelo organizador, dava ideia de que iríamos passar boa parte da manhã praticando alpinismo.

 

A altimetria do treino

 

A parte urbana do trajeto durou pouco. Com pouco menos de três quilômetros rodados, fizemos um cotovelo e pegamos a saída para a Estrada da Borda da Mata. A preocupação era chegar e encontrar uma estrada de terra liquefeita, devido às chuvas da véspera. A boa surpresa é que não era para tanto. Pegaríamos alguma lama pelo caminho, mas o prejuízo maior causado pela tempestade seria a perda da sinalização, que o Moacir tinha caprichosamente feito junto com os filhos. O benefício, da temperatura inesperadamente agradável, para quem andou lendo previsão de tempo com máxima de 32 graus, já estava praticamente sendo anulado. O calor, que tinha começado de mansinho, já começava a pegar pra valer.

 

Não é todo dia que a gente tem a oportunidade de correr ou treinar em cenários tão bonitos quanto aquele. A dureza das subidas era compensada pela beleza do visual, de muito verde e, parcialmente, pela alternância com descidas bem gostosas. Acabariam, mais pra frente, sendo excessivas, causando preocupação com joelhos e panturrilhas. Mas no começo, eram um alívio. O grupo grande inicial, àquela altura, já se subdividira em duplas, trios ou solistas. Meu parceiro de ritmo e de papo era o Sílvio. Toninho e Renny seguiam logo à frente, Fabio Matheus correndo sozinho um pouco mais adiante, assim como a Sílvia. Michel tinha começado mais na boa e nos seguia de perto, junto com a turma que iria voltar assim que a Carvalho Pinto aparecesse. Wagner, fazendo uma espécie de fartlek, ia e voltava com frequência, indo fazer companhia para a Tania e para retornar em seguida ao segundo pelotão.  

 

Começo da Estrada da Borda da Mata

 

Estranhamente (ou nem tanto), eu rendia bem nas rampas. A distância para o grupo da frente diminuía sempre que o terreno inclinava para cima; e voltava a aumentar nos (raros) trechos planos e nas descidas. Procurava dosar o ritmo, sabendo que o (meu) propósito do treino era seguir em uma velocidade que me permitisse correr a maior distância possível. E não fazia muita questão de saber qual era ela, já que o footpod tinha surtado e marcava coisas acima dos 7’/km. Confiava no feeling e ele me dizia que a velocidade de cruzeiro era adequada.

 

Veio a passagem por sob a rodovia e nada da turma da frente começar a voltar. As orientações, mesmo bem dadas por escrito e antes do treino, pareciam não ter surtido muito efeito. Só vi dois corredores, o próprio Wagner e o veterano que tinha chegado de última hora no treino e desejei bom retorno a ambos. Os que estavam atrás também bateram e voltaram, mas Zebra e sua turma prosseguiram. A especialidade do capita, já demonstrada no treino pós-corrida da Energy & Equilíbrio, é fechar os olhos e ir em frente. Terminaria correndo 22 km e chegando, bem e forte.

 

Outra boa dica dada pelo Moacir era da localização dos bares que poderiam servir como pontos de hidratação pelo caminho. Os dois primeiros apareceram na altura do km 9 e acabaram sendo descartados. Tomei um gole da garrafa que o Toninho carregava (intacta!) mesmo, já foi suficiente. Em compensação, o seguinte, já perto dos doze quilômetros rodados, foi unanimidade. Todo mundo, esbaforido e encalorado, parou. A R$ 1 a garrafa de 500ml (pechincha!), peguei logo duas, uma dada pelo Fabio Matheus e outra para viagem. Aproveitei também para um pipi-stop rápido e uma ducha na pia. Saí com a regata vermelha, presente do amigo Guilherme, tão ensopada que parecia uma daquelas roupas emborrachadas de mergulhador, ou coisa que o valha. E com a galera lembrando que, se rolasse um estouro de boiada pelo caminho, a vítima perfeita seria eu. Parecia uma capa de toureiro ambulante.

 

O ponto de hidratação e de “banho”

 

Na nova bifurcação, pegamos o caminho da esquerda, por onde o ônibus minutos antes, rumo ao centro de Caçapava, tinha seguido, levantando poeira aos montes. O grupo re-reunido, tinha novamente Fabio Matheus, Renny, Sílvia, Michel, Toninho, Sílvio e eu. Os quatro primeiros tornariam logo a abrir distância, deixando nosso trio em um ritmo mais lento e confortável. A primeira subida depois da pausa foi logo de arrebentar, não só bem íngreme, como bastante longa também. Dali até o novo encontro com a SP-70, aos 15 km do trajeto, teríamos um trecho bastante difícil, desgastante e desafiador, o famoso DDD.

 

Na subida mais curta, mas também mais forte que levou ao viaduto por sobre a estrada, perdemos a companhia do Sílvio, que sentiu um pouco e ficou para trás. O trio tinha virado dupla. Em algumas partes com um pouco mais de visibilidade, dava para ver o quanto a turma da frente, correndo bem, tinha se distanciado. Eu e o Toninho mantínhamos o nosso pique, subindo sem deixar cair muito o ritmo, segurando um pouco rampa abaixo, porque os joelhos já começavam a chiar. De século em século aparecia um trechinho de nada plano, mal dava pra ficar feliz. Mas bem contentes ficamos quando avistamos o carro do Wagner, vindo no sentido contrário com pisca-alerta ligado. Eu até tinha uma garrafa fechada na mão, mas o copinho de água gelada foi salvador. E o aviso de que tinha uma cobra, cem metros à frente, evitou o susto. Era uma daquelas verdes, pequenas e fininhas, mas quem não conhece bem os “modelos”, o melhor que faz é fugir de todas. Toninho, dando um gole d’água para a danada, a afugentou para o mato.

 

Visual do percurso

 

Quem tinha visto o gráfico antes do treino, imaginou que depois do entroncamento, ponto culminante do percurso, começavam as descidas. Pode até ser, mas isso não significava o fim das subidas. Quando eu e o Toninho já começávamos a achar que os 31 km inicialmente previstos davam pé, ao contrário do que chegamos a pensar na primeira parada, eis que surge uma das mais longas pirambeiras de todo o trajeto. Tinha chegado a comentar com o Michel, logo no começo, que o ponto que se deve evitar em qualquer treino longo desse tipo é aquele em que a validade do esforço é questionada. Quando você começa a pensar no que está fazendo ali, é hora de mudar de planos. Na metade da ladeira, isso chegou para mim. Por sorte, isso coincidiu com mais um barzinho de beira de estrada. A água era mais cara (R$ 1,50, 50% de ágio em relação ao outro boteco, mas bem mais em conta que os R$ 4 pagos no parque temático no dia anterior) e perdi um tempinho batendo papo com um camarada que, cigarro na mão, garrafa de 51 na outra, disse que admirava meu exemplo e que ia pensar seriamente na hipótese de voltar a praticar esportes. Se for de verdade, terá valido o bafo, digo, a pena. O Toninho sumiu à frente e parecia que só íamos voltar a nos ver na chegada.

 

Reidratado e andando uns duzentos metros até a ladeira desinclinar um pouco, voltei a trotar e encaixei um ritmo de final de treino. Reencontrei a Dutra e, na rua ao lado dela, também o parceiro corredor, que fez uma pausa para me esperar e perguntar qual era o caminho de volta. Ele parecia disposto a seguir em frente e tentar os 9 km que faltavam para a distância completa, mas eu tinha decidido que não iria. O percurso bastante complicado do trecho até ali, junto com o calor que já chegava ou ultrapassava os trinta graus e o horário, que já era meio avançado, tinham me chamado à razão. Gostaria muito de cumprir integralmente o script previsto, mas o bom senso prevaleceria. Continuar seria um desgaste físico e psicológico dos grandes, que eu optei por evitar. De caso pensado. Toninho, com visitas esperando em casa, pensou melhor e também se deu por satisfeito em terminar comigo o trajeto intermediário dos 24 km. Passamos novamente por sob a Dutra, depois de um up & down danado à beira dela. E pegamos de volta o retão da Av. Brasil.

 

Trecho da Dutra em Caçapava

 

Na volta ao plano, a sensação foi de estar mais inteiro do que parecia logo antes. Mas não houve arrependimento. Corremos bem toda a reta, e mesmo a última rampa, já na outra avenida, beirando a linha do trem e o quartel do exército. Viramos à direita na lateral da praça e, na última reta, eu até acelerei um pouco, concluindo os 24 km e alguns metros com tempo ligeiramente abaixo de 2h30min. Ritmo fraco, acima dos 6’/km, mas condizente com as condições climáticas e altimétricas encontradas hoje. Fomos cumprimentados pelos que lá já estavam. E acompanhamos em seguida a chegada do Fabio Matheus (que rodaria algo acima de 28 km, planejando fechar a distância completa, mas se perdendo no caminho), do Michel, que passou reto pela praça e, com muita garra e disposição, cumpriria o tempo estipulado para o treino. E, pra finalizar, do nosso anfitrião e amigo Moacir, que rodaria 30,6 km em bom ritmo. Chegando bastante cansado, como todos nós. Mas mostrando mais uma vez a determinação que tão bem o caracteriza. Espero que decida por correr a maratona, porque tenho certeza de que ele tem tudo para fazer uma excelente prova.

 

Se dessa vez não rolou uma superprodução gastronômica como as que estamos acostumados no pós-treino e pós-prova, valeu bastante sentar nos bancos da praça, bater um papo, recuperar o fôlego, tomar aquela água geladíssima, refrigerante, Aqua Velva, Pinho Sol, óleo de motor, querosene, enfim, tudo o que disponibilizaram para nossa reidratação. Aquele isopor que o Renny trouxe certamente salvou muitas vidas! Agradeci ao Moacir pelo convite e por toda a dedicação que ele demonstrou em todos os momentos, antes, durante e depois do treino. E sei que falo também em nome de todos os que lá estiveram. Valeu, meu amigo! Você nos proporcionou a todos um excelente treino.

 

Descontração no pós-treino

 

Acabei ficando devendo 7 km, que falei brincando pra galera que ia fazer à noite (lógico que sei que seria só desencargo de consciência e complemento de quilometragem semanal, NÃO VALENDO de forma alguma como parte do longão). Poderia estar preocupado com mais esse #fail, como se diz no Twitter, mas tenho convicção de que isso não vai me atrapalhar na preparação para Porto Alegre. Não vou deixar que nada atrapalhe. No próximo domingo, o de Páscoa, tem mais. Sozinho, como imagino por enquanto, mas também aceitando de muito bom grado a companhia de quem mais topar a encrenca.

 

Abraços,

 

Fábio Namiuti


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