No alto daquele cume...

Data: 08/10/2011 (sábado)

Horário: 9h11min

Distância: aproximadamente 10,4 km

 

O título do relato é o primeiro verso de um poeminha bem sacana que corre na internet há tempos e que o ícone do bregapop Falcão musicou. O dado ao treino, “Ataque ao cume”, foi também um autêntico convite aos trocadilhos infames. Propositalmente. Marquetei na cara dura, porque achei que valia a pena atrair bastante gente para um percurso que, tinha certeza, ficaria marcado na lembrança de todos que o fizessem. Não adiantaria muita coisa na prática, mas, enfim, se tem dois (contando comigo), já é treino coletivo. E eu gosto do mesmo jeito...

 

O cume em questão era o do Pico do Itapeva. Um acidente geográfico que pode ser assim considerado tanto no sentido denotativo quanto no conotativo. Meio bizarro um lugar fazer parte de uma cidade, mas só ter acesso por outra. Terminaríamos o nosso treino de hoje oficialmente em território pindense, mas, para chegarmos lá, a expedição teria necessariamente que partir de terras jordanenses. Ou aumentar a distância em trocentos quilômetros.

 

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O roteiro até o cume

 

Como de costume, a coisa toda surgiu meio ao acaso e foi colocada inicialmente em um bate-papo informal e eletrônico com bons e velhos companheiros de tramoias, como o Fabio Matheus e o Michel. A primeira vez que toquei no assunto, se me recordo bem, tinha sido há mais de um ano, pouco depois de fazer junto com o xará outra insanidade local, os 18 km do Mountain Do no outro ponto culminante da região, o Pico do Imbiri. O projeto até interessou, mas ficaria em standby durante um bom tempo, até ser apresentado a um entusiasta das rampas, ladeiras & pirambas. Um cara que não é lagartixa, mas adora correr nas paredes verticais por aí. Esse treino seria uma encomenda sob medida para o nosso bom amigo Wilson Arantes, que na internet assina com o pomposo nome de Spirit Runner, mas que a gente gosta mesmo é de chamar de cabrito montês. Foi só quando ele soube e comprou com gosto a ideia que ela realmente começou a sair da tela do computador para virar mais uma das nossas aventuras corrísticas.

 

A data combinada seria uma janelinha no nosso calendário local. Depois desse intervalo de algumas semanas sem corridas por aqui, teremos agora uma longa sequência de provas, daquelas para fominha nenhum botar defeito. A princípio, a ideia era marcar para o domingo, dia 09/10, mas o nosso paraninfo já tinha escala de trabalho para esse dia. Não dava para deixar o cara de fora, né? Mesmo que outros, trabalhando ou em atividades correlatas, acabassem perdendo a chance de participar com a antecipação, ficou confirmado o sábado. Dando-nos uma rara e agradável chance de dormir até mais tarde num dia em que costumamos acordar o galo.

 

Se já não tinham sido muitos os confirmados, ainda teríamos baixas de última hora. Triste perder a companhia sempre agradável de bons camaradas como Tonico, Seneval, Zé Roberto e os Rodrigos Aleixo e Gonçalves, entre outros. Além de não podermos contar também com gente que certamente adoraria estar conosco nessa boa encrenca, como Toninho e Silvio Lima, só pra ficar em dois exemplos. Alguns amigos paulistanos que convidei até se interessaram, mas acabariam não se animando a dar um estirão de 180 km de estrada até a cidade serrana. Compreensível. Mas nem só de más notícias viveríamos. Além de uma galera ponta firme, que está comigo em 99,99% das situações do tipo, bem como de novatos nos nossos treinos conjuntos, como o Claudir, o André e o Mario (bem-vindos!), ainda teríamos as aparições-surpresa de Edilson e João Carlos, acompanhados das respectivas famílias. A praça do Capivari ficou ainda mais bonita e alegre com aquela galera animada, reunida para os retratos do Cap. Zebra e tirando as últimas dúvidas sobre o itinerário.

 

Capivari em festa

 

Com um pequeno atraso (11 minutos) e um calor atípico na região (uns 26ºC), dobramos à esquerda na igreja de São Benedito e começamos, curiosamente em descida, o caminho até o topo. A minha liderança no pelotão seria tão provisória que não duraria nem até a esquina seguinte. Atravessamos as pistas da avenida e a pontezinha por sobre o córrego e pegamos a primeira rua que subisse, pois vários eram os caminhos no mapa até a estrada propriamente dita, quase cinco quilômetros adiante. E bota subir nisso! A inclinação da primeira ladeira já era matadora. A respiração já estava ofegante antes mesmo dos quatrocentos metros rodados. Acho que tinha ali gente de monte pensando “no que esse maldito japonês foi nos meter?”. Inclusive eu...

 

 

Rampinhas desse estilo para cima

 

O vídeo que eu havia postado no Facebook na véspera dava uma ideia do tamanho da encrenca que a gente iria enfrentar, coisa que o gráfico da altimetria já indicara também com antecedência. Mas subida dói mesmo é na panturrilha, não no monitor LCD. Veria os companheiros iniciais de trajeto, como Luis Carlos e Silvio Américo, abrindo alguma distância quando meu passo encurtou e virou brevemente uma caminhada de uns cem metros, se muito. E ganharia a companhia da Odila, primeiro também ultrapassando, depois sendo alcançada e virando parceira de quase todo o trajeto.

 

A altimetria no MapMyRun

 

A subida em dupla seria importante para que as caminhadas não voltassem a se repetir dali para frente. Ir batendo papo (sobre um tema só, claro!) com a amiga e guerreira corredora seria um importantíssimo passatempo. Porque o cenário era muito bonito, natural e arquitetonicamente falando, mas a inclinação era feia de fazer chorar... Como estava ali para me divertir e me desafiar, não dava a mínima para os tempos das parciais de quilômetros. Mas, só para dar uma ideia do quão devagar íamos, fechamos o km 1 com 7’07’’. E o dois, seguramente o mais íngreme de todo o percurso (só ele, com 81 metros de desnível), com estapafúrdios 8’43’’. O relógio que apitasse o quanto quisesse. Ele era uma mera formalidade. Correr morro acima é um outro esporte, muito menos dependente dele, aliás. E não ser seu escravo é uma enorme vantagem que os montanhistas sempre dizem, e não por acaso, ter em relação aos asfaltistas.

 

A partner

 

A partir do terceiro quilômetro, a coisa enfim pareceu dar uma leve amansada. Não que tenha ficado fácil, longe disso. Mas juntou uma inclinação um bocadinho menor com talvez um início de adaptação com a situação. A carcaça sacou que a coisa ia mesmo ser estressante, não tinha muito jeito. E somos tão fortes, costumo dizer, quanto queiramos ser. Engatei uma segunda marcha no lugar da primeira e voltei a rodar na casa dos 7 x 1, satisfeito como se estivesse a um pace de 4’30’’. Ainda batia uma certa preocupação de ter errado em algum momento o caminho e ir parar num beco sem saída. Mas os primeiros indícios de acerto começavam a aparecer e a tranquilizar um pouco. Ufa!

 

Belas casas de temporada e hotéis luxuosos adornavam o cenário, bem como muito verde, das araucárias e outras árvores; e belezas naturais, como a Pedra do Baú. Já dava para ver, ao longe e lá embaixo, a cidade que deixáramos para trás. Mas o nosso foco estava do outro lado, bem lá em cima. O km 4 fez que ia ser enjoado como o 2, mas acabou não confirmando isso. Até pensei em andar um pouquinho para retomar o fôlego de novo (acho que fiz mal em deixar o dilatador nasal na mochila hoje, fez falta!), mas acabei deixando para lá. Antes do bipe soar pela quinta vez, o caminho enfim se unificou. Agora não estávamos mais em uma rua, mas na estrada para o Pico do Itapeva. O asfalto mais lisinho e um trecho até com algumas inesperadas descidas deu um belo gás. O relógio voltaria a marcar provisoriamente tempos começando com seis.

 

Beleza para onde que se quisesse olhar

 

O embalo faria com que alcançássemos, eu e a Odila, alguns dos companheiros de treino que haviam disparado na frente. Primeiro o Diego, amigo do Edilson; depois, mais à frente, o Silvio Américo, hoje desfalcado do seu tradicional apito espanta-feras. Foi bom aumentar o grupo. Era um incentivando o outro, com palavras ou simplesmente com o barulho dos passos ali por perto. O desafio continuava. E empolgava.

 

Depois da aparente molezinha do trecho com mais descidas que subidas, o caldo voltaria a engrossar a partir do sexto quilômetro. Mas já estávamos talvez um pouco mais escolados com isso. O sétimo, onde enfim seríamos encontrados pelos nossos carros de apoio (a Janete estava em um deles), na apuração do GPS seria o segundo pior do trajeto, com 67 metros de oscilação positiva (positiva?) na altitude e ZERO de negativa. E com uma quase inevitável nova parcial na casa dos 8 x 1, mas por pouca coisa, dessa vez. No todo sinuoso km 8, uma nova recuperação de ritmo, com outra parcial na casa dos 6’. Eu já tirava onda, dizendo frases de ordem do tipo QUEM DISSE QUE A GENTE NÃO CHEGAVA? Ainda não, mas quase... A placa de divisa de município Campos do Jordão / Pindamonhangaba e a de entrada no parque do Pico do Itapeva nos davam as boas-vindas e a sensação de conquista iminente.

 

Santas placas!

 

Já dava para avistar as torres de TV, que pareciam bem próximas, até. A surpresa seria encontrar um km 9 praticamente todo em descida, com 50 metros de perda e apenas 11 de ganho de elevação. Acabei segurando um pouco o ímpeto, não valia a pena socar a bucha e, de graça, correr um risco de contusão no joelho ou tendão. Mas faria, claro, ainda assim a melhor média de velocidade do treino, por muito pouco não um começando com cinco. Uma espécie de prêmio pelo bom comportamento até ali. Só que também um presente de grego. Não se chega, lógico, ao cume descendo. Se tinha morro abaixo, é porque ainda tinha também morro acima. E ele nos daria o troco com estilo.

 

Ao lado do belo lago estavam reunidos os nossos staffs pessoais, que registraram a alegria da passagem. Deixei, como já havia também acontecido no caminho até Aparecida, fluir e transparecer um gostoso sentimento de orgulho. De quem era capaz de vencer, com a força das próprias pernas e pulmões, um não tão longo, mas difícil caminho até o objetivo final. NÃO FOI MOTOR, NÃO! Esse foi o grito. Bobo, pueril, de quem fica contente com qualquer coisinha. Mas muito verdadeiro também...

 

Quase lá...

 

O castigo seria meio grande nesse último trechinho, amenizado pelo deslumbrante cenário do mirante, de onde se veem, nos dias mais claros, algumas (quinze acho propaganda enganosa) das cidades do nosso Vale do Paraíba. A Odila disparou na frente e foi recebida com honras como a primeira do time feminino a completar. Eu daria uma caminhadinha para evitar qualquer mico na reta de chegada, mas voltaria a trotar e assim iria até o final, já com boa parte dos amigos também com a missão cumprida. Que bacana ser recebido com cumprimentos, abraços e um providencial kit com frutas, barrinha de cereal, água, refrigerante e até sanduíche de blanquet de peru. Esses meus amigos são chiques demais! Deixam muitos organizadores de provas oficiais no chinelo... Obrigado a todos que colaboraram para isso!

 

Chegando ao cume

 

E, dali em diante, só alegria, como já tinha sido, aliás, todo o caminho até ali. Aguardar a chegada do nosso Diretor Edward, da Cris, do André e do casal Ana e Kleber, todos bem e felizes com as vitórias pessoais. Reunir a galera naquele cenário fora de série para as fotos oficiais. Ouvir Zebra como um Michel Teló cover de qualidade musical sofrível, mas de fazer qualquer um cair na gargalhada. Tomar café com bolo e pão de queijo na beira do lago. Arrumar uma desculpa para fugir do tchibum (é verdade mesmo que andei gripado, leiam o relato da última corrida, hehehe...) e do cachorrão nadador, guardião da “piscina” (tem escadinha e azulejo no fundo mesmo?). E, de volta ao ponto de partida, ainda encarar um daqueles famosos pastelões do Maluf. Que belo treino! Que belo dia! Obrigado a todos que fizeram parte dele.

 

Os cumeeiros

 

Abraços,

 

Fábio Namiuti

Veja também:
O relato da Cristiane
O relato do Fabio Matheus
O relato do Michel
O relato do Wilson Arantes

 


Álbum de Fotos do Treino

 


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