O caldeirão da bruxa

Data: 31/10/2009 (sábado)

Horário: 10h14min

Distância: aproximadamente 16,3 km

Tempo: aproximadamente 2 horas

Temperatura: 32ºC (ou mais!)

 

Que me perdoem os mais puristas, mas o tal do Halloween, embora nada tenha a ver com o nosso folclore local, já virou tradição. Dia 31 de outubro virou dia de campainha tocando e pivetada aporrinhando atrás de doces, sob risco iminente de travessuras. As fantasias e as lanternas de abóboras, ainda estão restritas às festinhas escolares, mas, uma coisa é certa: é dia de bruxa solta! E como diz o sábio ditado espanhol, yo no creo, pero que las hay, las hay. Felizmente, sem maiores consequências para nenhum dos participantes deste treino, exceto um mero superaquecimento de rotina para a época do ano.

 

Quem fez a convocação desta vez foi o Jorge. Inscrito e em fase inicial de preparação para a São Silvestre, ele aproveitou a interrupção no calendário de provas na região para combinar comigo um trotezinho de duas horas neste início de feriadão. Estendi o convite ao Toninho, que não é de recusar chamados do tipo. E só não ampliei a lista de convidados porque não é todo mundo que topa distâncias maiores e velocidades menores como as previstas para hoje. Estávamos previamente combinados para as 8h da manhã, 7h na verdade descontando o horário de verão. Pelo calor dos últimos dias, bem mais intenso do que o vigente durante a Meia Maratona Frei Galvão, nada mais ideal. Mas São Silvestre não é São Silvestre sem o forno ligado... Assim, com visitas em casa, o Toninho pediu na véspera para mudarmos o horário para o das 10h. Bem mais útil, mas, ai, ai, ai...

 

O percurso do treino

 

No novo horário marcado, passei na casa do Jorge e fomos juntos até a frente do prédio do Toninho, que tinha acabado de “despachar” a turma. Quinze minutos depois das dez, começamos a jornada, pegando logo de cara a descida forte pela lateral do hipermercado. Forte também já estava o calor. Havia meia dúzia de nuvens, poucas em quantidade e dimensão para esconder um sol com tanta vontade de brilhar. Não tiraria nosso ânimo.

 

Depois da meia de domingo, tinha passado a semana com apenas dois treinos, uma rodagem livre de 7,5 km na terça-feira e um fartlek de pouco mais de 10 km na quinta. Bem pouco, mas o suficiente para constatar mais uma vez que o fastio temporário é mesmo só de corridas, não de correr. Continuo fazendo, e com gosto, a atividade física que tantas transformações benéficas tem trazido para minha saúde. E assim me sentia, bem, feliz e privilegiado por estar iniciando este treino ao lado de tão bons amigos. Sem cobranças, sem preocupações com tempos, paces ou placas de quilometragem. Correndo pelo prazer de correr. Como sempre deveria ser.

 

A altimetria do treino

 

O Jorge, meio traumatizado com outro treino farto em ladeiras que havíamos feito em trio depois da Maratona de São Paulo, tinha me pedido (brincando, mas com um fundo de verdade) para montar o trajeto. Se deixássemos por conta do veterano, o bicho ia pegar. O gosto dele pelas rampas acima é infinitamente maior que os nossos, mesmo que somados. Mas não fui lá muito condescendente com o amigo. Se o treino fosse para a Meia da Praia Grande, dava pra deixar flat, mas era para a São Silvestre. Na falta da Brigadeiro, o negócio era se virar com os “olhos de sogra” locais. Tinha incluído no planejamento duas subidas fortes: uma mais ou menos na metade do caminho e outra no quase no final. Seguíamos a caminho da primeira, fazendo o caminho de costume. Após deixarmos o Jardim Aquarius, pegamos pequeno trecho da Av. Jorge Zarur e, com uma certa dificuldade para atravessar o cruzamento de várias avenidas em frente ao shopping, seguimos pela Doutor Eduardo Cury. Por enquanto tudo planinho e relativamente suave.

 

Trecho da Avenida Doutor Eduardo Cury

 

Em outras ocasiões, no final desta reta virávamos à esquerda para ganharmos a pista da Via Oeste. Desta feita, passamos reto, seguindo sentido Urbanova. Variando um pouco, para não ficar repetitivo demais. O ritmo, que começara meio forte para os padrões do nosso líder do treino de hoje, já tinha caído um pouco. O gráfico não mostra, mas a Av. Lineu de Moura tem uma subidinha meio disfarçada, a partir da frente do hospital até chegar à entrada do clube de campo, seguindo pela lateral da ciclovia e passando pelas escolas e quadras de futebol society e tênis. Uma aguinha gelada já ia bem. Cada um levava a sua garrafinha, menos eu. Sou mais adepto da boa e velha parada para reabastecimento do que de carregar objetos nas mãos ou cintura.

 

Trecho da Avenida Lineu de Moura

 

No final da reta, com o estreitamento da calçada, a atenção com o eventual trânsito de ciclistas fica ainda mais importante. Toninho, pra variar, com fôlego sobrando e falando bom dia para todos que vinham de bike, além de outros corredores e transeuntes. Se resolver sair candidato, leva uma vaga de vereador, fácil, fácil... Mais uma reta, menos longa agora, e chegamos à primeira das três grandes rotatórias. Poucos metros à frente, depois da passagem pela ponte por sobre o rio Paraíba, a segunda e de maior diâmetro. Do lado direito dela, uma lembrança recente e desagradável, quando, em outro treino, o Toninho se acidentara, abreviando em treze os vinte e oito quilômetros que pretendíamos rodar no dia. Pelo sim, pelo não, optei por montar o trajeto adentrando o bairro pelo lado esquerdo. A calçadinha de pedras era parecida, mas um pouco menos irregular e perigosa. Prudência é virtude que todos que correm na rua devem ter.

 

Atravessamos a avenida Shishima Hifumi logo no começo e fomos correr pela calçada na pista oposta. Último trecho totalmente plano antes de entramos no começo da parte realmente difícil do treino. No final de mais essa reta, a Adega, ponto de parada praticamente obrigatório em quase todos os treinos que fazemos em conjunto por lá. Uma (ou duas, dependendo da quantidade de participantes) garrafa de 1,5 litro de água mineral, às vezes um gel de carboidrato, conforme a distância a ser percorrida. E estamos prontos para seguir adiante. Cinco minutinhos de intervalo que garantem todos os outros depois.

 

Trecho da Avenida Shishima Hifumi

 

E aí já vinha a terceira e última rotatória. No treino noturno com o pessoal da 100 Juízo duas semanas atrás, batizando o amigo Paulo Gallo nas distâncias acima dos 10 km, a havíamos contornado, evitando a lomba. Hoje, o requinte de crueldade era maior. Encarar a subida da lateral da universidade, mesmo não sendo toda a extensão dela, é missão inglória. Porém útil para quem está pensando em terminar o ano correndo. A frase que disse naquele momento para o amigo Jorge foi clichê, mas acredito verdadeiramente nela: a subida é forte, mas você é mais...

 

A "subidinha" da Univap Urbanova

 

E não é que o camarada encarou a pirambeira inteirinha, sem andar ou chiar? Esse é guerreiro. Duro era constatar que a descida correspondente não tinha ângulo ou distância equivalente, nem de longe. E que, logo à frente, vinha mais uma rampa acima, seguindo da igreja até o condomínio. Para só aí aparecer uma descidinha mais forte, gostosa e boa para soltar os braços (e o resto todo também!). O sol momentaneamente se escondeu e fez o ritmo voltar a ficar abaixo dos 6 minutos por quilômetro, como no começo do percurso. Mas logo reapareceu e começou a fazer estragos. Seguíamos agora pela parte bem menos movimentada do bairro, onde era possível até correr pelo canto do asfalto, ao invés das calçadas. O comecinho da Av. Possidônio José de Freitas era cheio de pequenas inclinações, mas depois da sede do GACC (que pena não terem realizado outras provas beneficentes em apoio à entidade depois de 2005), ficava tudo plano de novo. O footpod indicava ritmos mais fortes que o feeling fazia crer e já marcava quase 14 km percorridos. Estava meio na cara que com algum ágio, mas eu procurava usar os números como incentivo ao Jorge, que, como eu, muito pouco habituado a treinos naquele horário já próximo ao meio-dia, demonstrava algum cansaço. Mas seguíamos firmes.

 

Vista geral do Urbanova

 

Ao final de mais essa reta, viramos à direita e seguimos de volta no sentido da rotatória da entrada do bairro. O contorno já estava praticamente concluído. Pegamos então o lado esquerdo da pista, com o Toninho apontando o local exato da queda feia em agosto. A partir dali, meio de supetão, senti vontade de acelerar um pouco e não resisti a ela. Cheguei à ponte e esperei os companheiros de treino, mas depois disparei na frente de novo. A sensação de abafamento era grande, a sede trazida por ele, idem. Dei um pique forte, com o relógio chegando a mostrar pace instantâneo próximo a 5’. Só parei um quilômetro à frente, depois da curvinha da entrada do clube, onde havia do outro lado da pista um barzinho para mais uma parada estratégica. E tome água (pelo dobro do preço da anterior!). Quando os dois voltaram a me alcançar, pareciam que tinham visto um oásis no deserto...

 

Com esse estímulo a mais, a vontade era de tornar a acelerar, porque o calor já ultrapassava e muito o nível suportável. Faltavam termômetros para averiguar, mas a sensação chegava a ser próxima à vivenciada durante a Meia Frei Galvão de 2007 (35/36 graus). Eu encurtava o passo para tentar acompanhar o Jorge e o Toninho, mas, sem perceber, involuntariamente aumentava a frequência, tornando a abrir distância, repetindo várias vezes esse ritual. Na descidinha rumo ao parque aquático, voltei a dar uma estilingada, mas desta vez faltou um pouco de pulmão e perna. Antes de arrumar uma insolação, parei na esquina e pedi para os amigos para interrompermos o treino, no que houve consenso. Faltava bem pouco não para voltarmos ao ponto de partida, mas para podermos pedir o resgate da Samira (muito obrigado!), esposa e companhia inseparável do Jorge em todas as corridas dele. Pra chegar lá, só mais uma subidinha, a da Major Miguel Naked. Quase nada, se comparada a que estava prevista, a da Cassiano Ricardo, nossa Brigadeiro da vez. Pena o calor exagerado ter abreviado o treino e deixado de fora a “melhor parte” (sob critérios no mínimo discutíveis, hehehehe...) dele.

 

Fechamos a sessão sem completarmos os 18 km previstos inicialmente, mas perfazendo as duas horas também determinadas como tempo-base. Ficou de ótimo tamanho. Mais importante é que chegamos bem, inteiros, saudáveis, devidamente hidratados (garrafinhas de isotônico foram sumariamente esvaziadas ao final) e prontos para as próximas. Que tenha sido um bom início de preparação para o Jorge e que possa ajudar a levá-lo a mais uma bela e marcante corrida em sua trajetória. Certamente teremos outros treinos daqui até dezembro. De preferência, um vespertino, simulando o horário da prova. Que já ficou mais ou menos combinado, inclusive. Quem já tiver corrido alguma vez com a gente no Interlagos e quiser repetir a dose; ou quem quiser conhecer o trajeto, já está convidado desde já.

 

 

 

 

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