Apresentação

Em julho de 2002, aos 31 anos de idade, pesando quase 110 kg e fumando dois maços de cigarro por dia, um dia tive uma inflamação na gengiva e fui parar no médico para ver o que era. No que ele mediu a minha pressão arterial, o susto: 18 x 12. Fui carregado, igual a um saco de batatas, às pressas para ser atendido por um cardiologista, com um daqueles remédios embaixo da língua e tudo mais... Não tinha nenhum sintoma, até porque hipertensão é um mal silencioso, mas estava prestes a explodir. Tive muita sorte em não descobrir isso através de um infarto ou um AVC.

No mesmo dia larguei o cigarro (já havia tentado outras vezes, sem sucesso, durante os 15 anos em que fui fumante). Aconselhado pelo médico e com o incentivo e companhia da minha esposa, comecei a fazer caminhadas: oito voltas na pista de um parque perto de casa, cada uma com 670 metros. Apesar de ter uma certa dificuldade em seguir regimes, vi uns 10 kg sumirem muito rápido e me animei. Tomei gosto pela coisa e, mesmo achando um absurdo (sedentário que estava há quase 13 anos), resolvi arriscar uma corridinha de 200 metros, uma das laterais da pista. Cheguei ao final da reta com os pulmões de fora, parecia que tinha um saco de cimento em cada um deles. Mas não desanimei. Persisti, tentei outras vezes e foi ficando menos impossível a cada tentativa. Completei a primeira volta, depois duas andando para uma correndo, um pouco depois o inverso.

Um belo dia resolvi correr na rua. O que ouvi de bobagem não foi brincadeira. Coisas do tipo "vai rolando que chega mais rápido". Não tinha nem como ficar com raiva (mas fiquei, claro!), eles tinham razão. Foram só incentivos para que eu conseguisse deixar de ser engraçado correndo. Os 10 kg que eu perdi nas caminhadas se multiplicaram por 3. As gracinhas diárias foram se tornando semanais, mensais, até quase sumirem de vez.

Um outro belo dia vi na TV a propaganda de uma corrida de 10 km em Campos do Jordão. Se tivesse juízo, deixaria pra lá, mas resolvi me inscrever. Nem que fosse para não conseguir - foi uma frase que usei muitas vezes desde então. Não era a prova ideal para um principiante, hoje vejo que deveria ter tentado primeiro distâncias menores ou pelo menos um percurso plano. Durante a corrida, subindo e descendo morros e enfrentando terrenos irregulares, mil vezes pensei no que estava fazendo ali. Mas foi só cruzar o pórtico e botar aquela primeira medalha de participação no pescoço pra nunca mais querer parar.

De lá pra cá foram centenas de corridas, alguns sonhos já realizados (inclusive um de infância, correr a São Silvestre), vários outros ainda por realizar. Provas nas mais variadas distâncias, umas bastante tradicionais e outras totalmente desconhecidas, em pequenas cidades do interior. Veio a primeira Volta da Pampulha em BH, a primeira Meia Maratona do Rio (e muitas outras meias), a primeira prova de 25 km. Três anos depois de estrear em uma corrida, resolvi encarar um novo grande desafio: a primeira maratona! Foram muitos treinos, muito suor e dedicação; e uma cãibra durante o percurso que quase botou tudo a perder. Mas consegui concluir a prova de 42,195 km, também no Rio de Janeiro, naquele visual fantástico passando por toda a orla. Gostei tanto que não parei mais. Já fiz outras maratonas, no Rio, em São Paulo, Bertioga (na areia!), Porto Alegre e Belo Horizonte. Em 2013, corri minha primeira maratona internacional, em Lisboa, Portugal; em 2014, uma meia maratona em Buenos Aires, Argentina. E quero continuar fazendo muitas outras, sempre. A corrida tem me proporcionado muitas viagens, passeios em família e diversão, coisas que andavam meio em segundo plano na minha vida antes dela.

Quase cinco anos depois da estreia na maratona, achei que era chegada a hora de alçar voos mais altos (e distantes). Pensei em começar já por uma daquelas encrencas gigantescas, uma prova com 24 horas de duração. Mas o acaso acabou me chamando à razão e me levando a estrear nas ultramaratonas em uma prova de pista, mas com 50 km. Um grande desafio físico, mas também mental, vencido com brio e perseverança. Mais um degrau alcançado nessa trajetória humilde, mas sempre progressiva, como corredor.

Não me considero um maratonista (ou ultra), mas um corredor, que também faz maratonas e até distâncias maiores. E que corre, com o mesmo entusiasmo e alegria, provas de 5, 10 km, meias, ou de qualquer outra extensão. No asfalto, na terra, na areia, na montanha, em escadas, em qualquer lugar que me chamem pra correr. Até na esteira, se precisar! Que treina muito e se dedica bastante na preparação para os grandes desafios, mas que não se vê obrigado a aumentar automaticamente as distâncias a cada vez que uma nova é alcançada. Que prefere dominar bem um estágio antes de alcançar o próximo, porque acha que isso é o mais sensato. Que acredita que vai chegar a distâncias ainda maiores, mas não tem pressa nenhuma de fazê-lo, já que pretende seguir correndo a vida toda. Que não vai muito nessa de limites, porque acredita que, quem os procura muito, acaba encontrando. Que corre com prazer e responsabilidade, respeitando seu corpo, tendo em mente que tudo começou em busca de saúde e melhor qualidade de vida. Que sabe que se tiver que parar, para simplesmente, porque sempre vai haver a próxima oportunidade. E que, com isso, vem se mantendo há mais de uma década em atividade, sem contusões mais sérias. Mas que sabe também que a corrida é um esporte em que mesmo pessoas comuns, com saúde, vontade, disciplina e determinação, podem fazer coisas extraordinárias.

Fiz um grande número de novos amigos nas corridas e nos espaços sobre o esporte na internet. Com eles, aprendi muitas coisas, corrigi meus erros de novato e tenho descoberto muita coisa quase todos os dias. Aderi à uma equipe, a 100 Juízo, na qual encontrei uma segunda família, agregando gente com a mesma paixão incondicional pelo esporte. Criei o site Arquivo de Corridas, onde faço relatos e análises das provas de que participo. Escrevi os livros, "Melhor que o caminho é o caminhar", para contar algumas das histórias dessa verdadeira transformação pessoal e "Palavras pelo caminho". A corrida entrou na minha vida em definitivo e virou o meu estilo de vida. Não sou atleta, não tenho qualquer pretensão maior no esporte. Sou ciente das minhas óbvias limitações, não vou criar falsas expectativas, mas ainda quero fazer muita coisa legal nas corridas por aí.

E, melhor do que tudo, recuperei a minha saúde e a minha autoestima, que andavam em baixa, ao contrário dos meus índices de colesterol e triglicerídeos. Minha pressão hoje é de 11 x 6 e só tem melhorado, bem como os meus tempos nas corridas. Vendo gente saudável e cheia de gás, correndo aos 60, 70, 80 anos ou mais, encontrei o que quero continuar fazendo pelo resto da minha vida...

Fábio Namiuti, analista programador, 48 anos, São José dos Campos - SP

Quer conhecer um pouco mais da história desse corredor?

Leia Melhor que o caminho é o caminhar, meu primeiro livro:

E Palavras pelo caminho, meu segundo livro:

Programa "Vamos Correr!" - ESPN Brasil (09/12/2011) - Entrevista com Fábio Namiuti


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