Anatomia de uma “vingança”

Data: várias

Horário: vários

Distância: várias

Companheiros de treinos: vários (embora nem todos soubessem)

 

Cheguei de Porto Alegre arrasado, cabisbaixo, verdadeiramente disposto a nunca mais correr uma maratona na vida. Com a sensação, como das outras vezes, de que não era algo para mim, mas com intensidade muito mais devastadora. Contudo, ela durou poucos dias. Entre os dias 27 e 28 de maio, quatro e cinco depois da derrota nos pampas, falava eletronicamente com os amigos Jorge Monteiro e Ricardo Hoffmann nos seguintes termos:

 

De: Fábio Namiuti
Enviada em: quinta-feira, 27 de maio de 2010 12:01
Para: 'Jorge Monteiro'

Bom dia, Jorge, tudo bem? Só uma sondagem: se eu falasse que iria para o Rio fazer a maratona, conseguiria uma carona com vocês?

 

De: Fábio Namiuti
Enviada em: sexta-feira, 28 de maio de 2010 12:07
Para: 'Ricardo Hoffmann'

Camarada, tem vaga por aí mesmo? A carona eu já deixei mais ou menos ajeitada com meu chapa Jorge Monteiro, que vai pra meia. Se você garantir que não vou atrapalhar (muito) e nem causar (grandes) transtornos, aí com vocês pra tentar ressuscitar no dia 18/07.

 

As respostas foram promissoras e muito animadoras:

 

De: Jorge Monteiro

Enviada em: quinta-feira, 27 de maio de 2010 12:28
Para: Fábio Namiuti

Já tá no carro.

 

De: Ricardo Hoffmann
Enviada em: sexta-feira, 28 de maio de 2010 18:40
Para: Fábio Namiuti

Opa, grande notícia. Suíte master reservada.Traga a família para passear no RJ. E vamukivamo para mais uma!

 

A inscrição para a Maratona do Rio de Janeiro foi feita no dia seguinte, sábado, 29 de junho. No dia 30, (re)animadíssimo, fui a Tremembé e quebrei meu recorde dos 5 km no Geninho, correndo com alegria e muita vontade. O guerreiro estava vivo...

 

Montei, por conta própria, mas usando literatura da área, uma planilha simples, quase espartana, que consistia basicamente de uma semana de base e seis de treinos propriamente ditos. Sem pirotecnias. Durante a semana um trote regenerativo, um fartlek progressivo, uma sessão (caseira, usando rubber band) de musculação, um intervalado com tiros de 1000 metros (que acabei trocando quase sempre por rodagens livres), um longão, um dia de folga e um ”presentinho” (sim, como concessão e prêmio pelo bom comportamento, dei-me o direito de fazer uma prova por semana, com exceção da primeira). Não pode? Pode!

 

Semana

de

até

Segunda

Terça

Quarta

Quinta

Sexta

Sábado

Domingo

Base

31-mai

6-jun

Rodagem

Rodagem

Musculação

Rodagem

Folga

21 km

Folga

1

7-jun

13-jun

30'-40'

Fartlek 40'

Musculação

5 x 1 km

25 km

Folga

Unimed

2

14-jun

20-jun

30'-40'

Fartlek 50'

Musculação

28 km

Folga

Caraguá

Arujá

3

21-jun

27-jun

30'-40'

Fartlek 60'

Musculação

30 km

Folga

7 x 1 km

Campinas

4

28-jun

4-jul

30'-40'

Fartlek 75'

Musculação

32 km

Folga

8 x 1 km

Bombeiros

5

5-jul

11-jul

30'-40'

Fartlek 50'

Musculação

Folga

9 de Julho

25 km

6 x 1 km

6

12-jul

18-jul

30'

Folga

50'

Folga

30'

Folga

Maratona

 

A partir daí, o que se seguiu, foram alguns treinos marcantes, dignos de nota, que descrevo brevemente na sequência:

 

Sábado, 5 de junho de 2010

Percurso: Satélite – Colinas – Urbanova

http://www.mapmyrun.com/route/br/Sao%20Jose%20dos%20Campos/196127575065741423

Distância: 23,07 km

Tempo: 2h37min

 

O primeiro “longuinho” encerrava a semana de base da planilha. E foi feito na companhia valorosa do amigo para quem xavequei a carona. Dando início também aos treinos dele para a meia maratona. Saí logo cedo, antes das 8h e com friozinho de casa e, pegando o retão plano das avenidas Mário Covas e do Vidoca, percorri os pouco mais de 5 km que separam nossas residências. Junto com o Jorge, fiz o restante do trajeto, começando na portaria do lava-rápido do shopping e dando a volta na avenida em forma de arco que contorna o bairro do Urbanova. O ritmo foi tranquilo para os meus padrões, mas serviu de estímulo para o companheiro de treino. Melhorou em bons minutos a marca no trajeto, habitual dos treinos dele. Demonstrando traços da garra e a determinação que tão bem o caracterizam e que o levariam, no dia decisivo, ao recorde também na prova. Dispensei, com tristeza, o tradicional café da manhã pós-treino. E inteirei a distância voltando para casa pelo mesmo caminho. Era para ser de 21 km e passou dos 23. Comecei embalado!

 

Sexta, 11 de junho de 2010

Percurso: Parque Santos Dumont – Via Oeste – Jardim das Indústrias – Bela Vista

http://www.mapmyrun.com/route/br/S%E3o%20Jos%E9%20dos%20Campos/890127601229653138

Distância: 24,47 km

Tempo: 2h30min

 

Entraria definitivamente nesse enredo mais um personagem importante: meu amigo Michel, o único remanescente da turma local que continuaria treinando para longas distâncias, envolvido no projeto pessoal da segunda maratona, primeira fora do país. Abrindo o jogo, o convidei para me acompanhar nos longos semanais. Nesse final de tarde e começo de noite gelados (fazia uns 15 graus!) de sexta-feira, deixamos os carros no estacionamento do parque e fizemos uma bela rodagem pelas avenidas das regiões central e oeste da cidade. Destaque para a altimetria do percurso, com algumas subidas fortes, todas devidamente enfrentadas pela dupla, bem como alguns canídeos pelo caminho. Vivíamos a expectativa pela estreia do Brasil na Copa do Mundo. E as duas horas e meia passaram voando, num bate-papo pra lá de agradável com esse grande camarada. Acabamos dando um migué em parte de uma das ladeiras e o trajeto, que seria de 25 km, recebeu um desconto de alguns metros. Ficou de bom tamanho. Dois dias depois, faria uma boa prova, resgatando um tempo sub-50’ nos 10 km, na Unimed Run.

 

Quinta, 17 de junho de 2010

Percurso: Satélite – Chácaras Reunidas – Limoeiro – Jardim das Indústrias - Aquarius

http://www.mapmyrun.com/route/br/Sao%20Jose%20dos%20Campos/765127682288461272

Distância: 26,34 km

Tempo: 2h47min

 

Se os dois primeiros treinos tiveram auxílio e companhia inestimáveis dos amigos, era importante fazer também pelo menos alguns sozinho, como as provas longas costumam ser. Se até então o céu era de brigadeiro, a luz amarela da preocupação acendeu pela primeira vez. A primeira parte do percurso, ainda na região sul da cidade, foi bastante tranquila. Do outro lado da rodovia Rio-SP, entretanto, o bicho começou a pegar. O ritmo caiu bastante no sobe e desce pelo Limoeiro, bateu cansaço, doeu um pouco o joelho (e que medo que deu de ter feito caquinha ao abandonar provisoriamente a musculação “formal”). Deu sensação de estar correndo de caneleira, mas o peso na balança parecia mostrar que não era bem canela o problema. A distância total, prevista para 28 km, não chegou nem aos 27, fiquei devendo pelo menos uma milha para isso. Estive a ponto de chutar o balde e jogar tudo para o alto. Mas tive um final de semana glorioso, que pareceu mudar totalmente o astral. Fiz uma prova deliciosa no sábado, num morro insano e sem fim em Caraguá. E, representando o amigo Edward, completei a dobradinha no domingo em Arujá, correndo mal e porcamente os 5 km, mas contente por estar presente, com os amigos da minha equipe e, de quebra e apesar de tudo, fazendo meu melhor resultado percentual (entre os 13% melhores na prova). O up & down não era só do Limoeiro.

 

Quinta, 24 de junho de 2010

Percurso: Santos Dumont – Esplanada do Sol – Via Norte – Alto da Ponte – Centro - V. Adyanna

http://www.mapmyrun.com/run/brazil/sao-jose-dos-campos/733127743241091198

Distância: 27,65 km

Tempo: 3h

 

A dupla virou trio, sobrinho chamou tio e Luis Carlos, o bravo, juntou-se a nós, mesmo sem provas longas a fazer. Sabia do projeto paraguaio, mas não do carioca. Uma semana depois do quase naufrágio, voltei a fazer um treino bem gostoso, apesar de o ritmo final aferido ter sido ainda mais baixo que o do anterior. Este trajeto integrou a região central à zona norte joseense, terra dos meus dois companheiros de jornada. Começou meio esculhambado, nos obrigando a arrumar vias alternativas por causa da picape do fumacê, que adora espalhar inseticida nos pulmões dos corredores e caminhantes. Mas foi ficando interessante e divertido; e teve até pegadinha do Mallandro: inspirado na cachorrada de duas semanas antes, o Michel chegou ao final da curva que separa Alto da Ponte de Santana gritando “volta, olha os cachorros!”. Quase rasgou de vez minha virilha, ainda detonada de PoA, o sacana. Mas rendeu boas gargalhadas. Tendo começado mais tarde que os primeiros, esse treino acabou sendo truncado na marra, para não ficarmos rodando até tarde da noite, mas por conta do cansaço generalizado também. Era para ser o primeiro de 30 km, e teve bem menos que isso. Mas cumpriu a meta de tempo que, afinal, era mais importante “dizer” ao corpo que a quilometragem em si. Nova dobradinha no final de semana seguinte: aniversário do nosso capitão Zebra no sábado e provinha longe de casa, acordando de madrugada para visitar Ivo e Marly em Campinas no domingo. Experiente não só em maratonas, o amigo sacou na hora o que eu estava tramando.

 

Quinta, 1 de julho de 2010

Percurso: Satélite – Santos Dumont – Monte Castelo – Urbanova

http://www.mapmyrun.com/route/br/Sao%20Jose%20dos%20Campos/584127803667555068

Distância: 31,78 km

Tempo: 3h20min

 

Na véspera do dia em que um anão, um cavalo e dois holandeses carecas nos despacharam de volta da África, eu tive certeza (ou convicção) de que a coisa dava pé. Fácil não seria, como nunca é, aliás. Michel acusou dores musculares, Luis Carlos, tosse. Perdi de última hora as companhias, mas não a disposição. Saindo de casa e indo até o estacionamento do parque, peguei dali o trecho planejado, mas não executado, por onde passaria o longão da semana anterior e o cumpri integralmente, com subidas, descidas, trânsito carregado e tudo mais. Atravessei a JK, artéria de ligação entre o centro e a zona leste da cidade, voltei para a região central, contornando o Banhado e, descendo a São João (que aqui não encontra a Ipiranga), segui rumo ao tradicional caminho do Urbanova. Mas ainda assim dei um jeito de inovar. Ao invés de dar a volta inteira, como fazemos quase sempre, evitei as subidas, indo até a rotatória antes da universidade e voltando dali, até chegar ao ponto de partida. Constatei (e tuitei) ao final, feliz, que era o meu treino mais longo não só desse ciclo de preparação, mas de toda a história. Tirando as maratonas em si, nunca tinha rodado por tamanha distância em tempo nenhum. Não completei os 32 km estimados por pouco mais de duzentos metros, só faltou escalar a R. Antônio Aleixo. Não precisava. A confiança estava em alta. E escalada por escalada, fui fazer logo a da Nazaré nos Bombeiros, que era clássica, dias depois, para comemorar.

 

Sábado, 10 de julho de 2010

Percurso: Satélite – Colinas – Urbanova

http://www.mapmyrun.com/run/brazil/sao-jose-dos-campos/546127880202895165

Distância: 21,44 km

Tempo: 2h31min

 

Na véspera tinha feito uma prova bem fraquinha, minha quinta participação seguida na 9 de Julho em Guará. Mas mesmo assim mantive o compromisso. Repetindo o esquema do primeiro treino deste cronograma, deixei o meu bairro, ainda mais cedo, pouco depois das 7h30 e, mais uma vez sem o Michel (vou dar um desconto por causa da bolha, parceiro!), fui encontrar o Jorge e repetir o mesmo convencional trajeto até o Urbanova. Dessa vez teríamos a companhia também da Amanda, sobrinha dele, que está ainda começando nas corridas, tinha feito apenas a do aniversário de Caçapava. Mas já mostra jeito para a coisa, tendo nos acompanhado com galhardia durante 12,5 km (o máximo que ela já tinha feito até então era cerca de 8). Comecei forte, fazendo em tempo recorde a primeira parte do caminho. Mas depois relaxei geral no restante, feito num ritmo confortável, daqueles que permitem até dizer inconstitucionalissimamente sem engasgos. Despedi-me dos amigos contente, mas a volta não foi das melhores. Parei no hipermercado para beber uma água e senti o mesmo incômodo que, dias antes, mais ao sul, tinha me obrigado a desistir da meta e transformar 42 em “apenas” 28. Andei um trecho, cortei mais de 3,5 km da distância prevista para esse último longão. E entrei na última semana antes do grande dia com a pulga atrás da orelha.

 

Quarta, 14 de julho de 2010

Percurso: “Centro Histórico” de São José dos Campos

http://www.mapmyrun.com/route/br/S%E3o%20Jos%E9%20dos%20Campos/503127905330529242

Distância: 9 km

Tempo: 49min52seg

 

Benji Durden, meu “treinador” (o cara em cujas técnicas e teorias me inspirei para montar minha planilha para Porto Alegre) tem uma frase que eu achei definitiva sobre treinos e corridas:

 

Quando fizer o programa, lembre-se de ter prazer na corrida. Caso pareça mais como um trabalho, você provavelmente está se esforçando demais.

 

Como último passo dessa longa caminhada até o Rio de Janeiro, levei ao pé da letra o ensinamento do mestre. Decidi transformar trabalho em prazer. Inspirado por uma brincadeira que fiz com o neodesajuizado Anderson Consenzo no Twitter, inventei um percurso maluco, que gostaria de um dia ver transformado em corrida oficial, como é a da capital paulista. Num vaivém inusitado, passando pelos principais pontos históricos e/ou importantes do centro de São José dos Campos, convoquei os amigos, sem revelar ainda do que era exatamente a despedida. Só não convidei a chuva, mas ela veio assim mesmo, deixando os supostos participantes fora da brincadeira. Fiquei envergonhado por ser o único doido a dar as caras naquele ponto de ônibus da Av. São José, no meio daquela quase tempestade e ventania de gelar os ossos. Mas não seria, não. Primeiro apareceu o Michel, depois o Toninho (ainda bem que deu tempo dele se recuperar da lesão e fazer parte dessa história, companheiro de batalhas que é e sempre foi!), em seguida o Wagner (que justifica a marca que carrega no peito, na nossa gloriosa farda 100 Juízo). E saímos todos, feito crianças brincando na chuva, ouvindo todo tipo de piadinha, xingamento e até alguns incentivos dos (poucos) transeuntes; e dando risadas a granel. Falo por mim, mas sei que tenho a concordância de todos os que lá estiveram. Foi um treino divertidíssimo, um dos mais agradáveis que fiz na vida. Bom ritmo, estimulado pelo pique dos companheiros. E o melhor, sem sentir nenhuma dor e qualquer vestígio do desconforto de dias antes. Fui dormir naquela noite de alma lavada, literalmente. Com a sensação da missão cumprida, da boa loucura. E do , eu gosto mesmo dessa bagaça. O resto da história, quatro dias depois, eu já contei aqui...

 

Abraços,

 

Fábio Namiuti

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